[GUEST POST] E a sua alimentação, como está?

Desabafo da Fernanda, do blog Gordas e Feministas, para o Dia Internacional sem Dieta.

Bom, hoje vou listar tudo que comi, sem medo de julgamento, pois existem regras de comer certo? Comer de três em três horas, nem todo mundo segue isso por N motivos, mas quando o gordo burla essa regra: AH, PODE ESPERAR O DISCURSO PRONTO!

É verão, tá quente que só o capeta… vim visitar minha mãe, que mesmo preocupada com a minha saúde e meu peso, sem querer é gordofóbica! Não posso me demorar muito nesses detalhes pois não é certo expor a intimidade dela, enfim. Mas pelo meu post anterior dá para entender porque a citei como gordofóbica.

Vamos ao cardápio e depois os fatos, mas, sério mesmo, eu não tô preocupada com a opinião de vocês em achar que eu comi muito, talvez eu coma mesmo e não nego, não dormi direito, fiquei nervosa e descontei na comida, assim como uma pessoa desconta nas drogas, em outras pessoas ou em qualquer outra coisa.

– Comi três pães cada um com um hambúrguer*, mas não seguido do outro. Isso da hora em que acordei umas sete da manhã até umas onze…

– Fui almoçar umas duas e meia da tarde, tomei uma caipirinha de abacaxi enquanto aguardava a refeição…

– Eu almocei: arroz, feijão, brócolis e couve flor, cenoura e batata, tudo veio em forma de salada, sabe? E algumas batatas fritas, não comi muito. Ah, e um pouquinho de vinagrete.

– Minha mãe: arroz, feijão, dois bifes de picanha pequenos, fritas e a mesma salada que eu comia.

Bom, a nível de esclarecimento a carne causa uma saciedade enorme, não me lembro ao certo para dizer o tempo exato, porém eu como vegetariana extrema (minha alimentação é cem por cento vegetal) e dependendo do que eu comer, principalmente se for legumes, além de ter uma digestão MUITO mais rápida, a fome volta mais rapidamente também. Óbvio que isso depende muito do que comer, mas minha alimentação básica é essa e o resultado: eu como mais que uma pessoa”normal”.

Bom, quando deu umas seis e meia da noite, eu senti fome, porém como ainda se falava do almoço e de como estavam satisfeitos, fiz um pão com meu ultimo hambúrguer de soja e fui comer escondido no quarto – quando morava com a minha mãe essa situação se repetia facilmente, esperava ela ir dormir ou comia em um horário diferente do dela para poder comer “à vontade”. Me recordei disso há pouco, pois é algo que dilacera tanto que tinha apagado da minha mente…

Deitei um pouco, acordei umas nove horas e minha mãe disse: “Comprei pão, para NÓS não precisarmos jantar”. Eu fiquei puta pois estava aguando por um brócolis de frigideira e arroz fresquinho, não falei nada mas fiquei resmungando, o que rendeu uma PUTA DUMA BRIGA, no estilo: “VOCÊ NÃO PODE FICAR UM DIA SEM JANTAR, FERNANDA???”

Virou uma discussão de gritarias, UMA VERDADEIRA BOSTA, resumo: Eu não comi até agora que são exatamente 23:14, tô com os olhos doendo e a cabeça martelando, chorei demais, chorei de raiva, de mágoa, de me sentir invadida e não compreendida e lhes digo esse fato já ocorreu inúmeras vezes..

Não sei os frutos que vou colher desse blog, e nem do tanto em que estou me expondo, mas eu sei que TEM MUITAS GAROTAS E GAROTOS, que estão se identificando com o que escrevo, e considero isso um humilde “caldo político”.

Não é fácil, tá maior clima aqui em casa por MINHA causa, se a desculpa for a preocupação com a quantidade de comida que eu como, eu tenho certeza que eu comendo mesmo minhas frituras, meus doces veganos que são MUITO MUITO saudáveis, meus salgados que incluem temperos mil, um montão de legumes, e comendo BEM, bastante; sempre ouvi que meu estomago ia dilatar e não ia ter como e ter que operar, cresci com essa merda de medo, e isso fodeu e muito minha relação com a comida, porém é algo que tento controlar, mas eu te garanto que quem devia vigiar a própria saúde e uma boca que fuma há mais de vinte anos, come todos os tipos de carne e suas gorduras, ingere pouquíssimas frutas, não consome legumes – a não ser quando venho visitá-la – quem não consome NADA saudável, é ela e não eu. Tô num daqueles dias em que a opressão te destrói tá ligado?

Vou frisar pela última vez que esses escritos não são apologistas a obesidade e sim relatos do que vivemos e nos oprime e dilacera a alma como SER HUMANO.

Ass.: Fernanda, GORDA QUE COME MUITO, MESMO!

AHHHHHHHHHHHHH, já ia me esquecendo, minha mãe também está tomando uma forma manipulada: CAPSULA DE ÓLEO DE CARTAMO (CARTHAMUS TINCTORIUS).
Descrição: AUMENTA SACIEDADE, diminui a gordura localizada e colesterol.

LEGAL MUNDO, ela foi dormir puta por causa da treta e a culpa é minha.

*Hambúrguer de soja, pois sou vegetariana.

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Relato anônimo para o Dia Internacional Sem dieta #2

Olá, amigxs. Eu queria compartilhar a história de minha relação com meu pé. É, meu pé. Não que eu não possua milhões de aspectos que poderiam ser abordados aqui que causariam mais comoção – de fato, faço parte de algumas minorias discriminadas. Eu só queria demonstrar como algumas pequenas agressões, como comentários que parecem apenas ligeiramente críticos, podem minar a auto-estima da pessoa a níveis alarmantes. Talvez assim alguns percebam que determinados “pontos de vista” preconceituosos podem ferir.
Quando eu entrei na puberdade, como a maior parte das meninas (cis), eu tive que passar por uma turbulência causada pela minha imagem no espelho versus a imagem midiática. Nesse ponto, passei bem. Veja só, eu era uma gordinha e por longos anos assim continuei, e raramente me importei com isso. Eu me via como gostaria de ver, e isso é claro, incomodava algumas outras meninas. Uma parente minha (da mesma idade) era uma dessas mocinhas que se encaixam nos padrões esperados socialmente e que servem de exemplo para quem acha que apenas por essa razão a felicidade bate a porta. Sendo bastante provocadora, gostava de dar umas alfinetadas nas amigas, e, eventualmente, em mim. Pois, a despeito da minha série de imperfeições, ela resolveu falar sobre meu pé:
“seu pé é feio”, “com a unha pintada fica ainda mais horrível” “aff, cobre isso” – não obstante, convenceu as amigas e irmã desta opinião e eu fui bombardeada por comentários semelhantes.
Meu sapato preferido na adolescência era tênis. Eu tive coleções,  fazendo minha mãe quase enlouquecer na sua saga para que eu expusesse meu pé; às vezes, recusava ir à praia ou a piscina para não ter que ficar descalça, e até mesmo quando ia, usava um sapato fechado, evitando que os outros olhassem. Sempre tive um pouco de inveja desses que andavam de chinelos para cima e para baixo – pés de todos os tipos. Eu pensava comigo mesmo qual a razão de não conseguir também me livrar disso. Foram alguns anos. eventualmente, eu era obrigada a usar sandálias, chinelos, sapatos altos que mostravam meus dedos. Não digo que encarei como uma libertação, apenas estava menos desconfortável.
Eis que um belo dia eu vou à manicure (um casamento); a mulher me pergunta se eu vou pintar a unha dos pés. Eu aviso que o sapato que eu vou usar é fechado e eu não costumo usar abertos. E acho que não combina, complemento, não fica bem no meu pé. A moça do lado me censura: “se eu tivesse um pé como seu, eu pintaria sempre. É tão bonitinho.”
Anos de feminismo me livraram da obsessão da beleza, da compulsão por magreza, do sentimento de inadequação. Mas acho que o grande sentido foi ver que essa é a corrente de insegurança a qual somos todxs postos: “nada seu é bom o suficiente”, “você poderia ser perfeitx, se tentasse”, “você não precisa ser você, pode ser muito melhor”. E quando não o conseguimos, tal qual é esperado, nos escondemos, nos mutilamos. O pé da moça não tinha nada errado. Nem o meu. De fato, estou descalça agora, admirando esta parte de mim que é tão minha quanto todo o resto. E, sendo minha, é bela (:

Relato anônimo para o Dia Internacional Sem dieta #1

isso é só um desabafo. sintam-se livre publicar, citar, ou seja lá pra que isso sirva, se servir pra alguma coisa. eu acabei de ler sobre o dia int. sem dieta na página do facebook e, sinceramente, eu fiquei tremendamente emocionada. eu daria qualquer coisa pra que iniciativas assim tivessem tanta visibilidade como a propaganda da marisa, que encoraja pessoas a torturarem o próprio corpo pra atingir padrões alheios, principalmente durante minha infância e adolescência. digo isso como alguém que sofre de um transtorno alimentar crônico, que perdeu as esperanças de cura e só ambiciona uma vida funcional. não que eu acredite que a mídia tenha uma importância fundamental na minha condição, até porque a história dos transtornos alimentares data desde muito antes disso e envolve um emaranhado de questões ligadas à genéticas, dinâmicas familiares, percepções, habilidades, ambiente, e tantos outros fatores que apontar um grande culpado é impossível, e a mídia com certeza não seria um deles, mas a mídia É SIM um FACILITADOR, e faz com que comportamentos altamente destrutivos e doentios sejam vistos como aceitáveis e até encorajados. permitindo que pessoas se para dirijam cada vez mais perto de um abismo, sob os olhares de aprovação e aplausos de amigos e familiares. se meu comportamento não fosse sinônimo de disciplina e controle, e uma característica bem vista no quadro da filha perfeita e virtuosa, meus gritos por ajuda silenciosos teriam sido ouvidos com anos de antecipação e hoje, talvez, eu estivesse em outra posição. tenham em mente que esse tipo de campanha pode salvar a vida de muitas pessoas e vcs nem imaginam o quanto eu fico feliz por ver que existem pessoas que se importam. beijos.

[GUEST POST] Dia Internacional Sem Dieta

[Trigger Warning (aviso de conteúdo possivelmente incômodo): relato sobre distúrbios alimentares, bullying, gordofobia.]

É de se esperar que muita gente esteja feliz com o fato de hoje ser o Dia Internacional Sem Dieta. Em partes, também estou, em especial por saber que existem pessoas que se importam com essa causa o suficiente para reservar um dia só pra ela. Claro que o meu ideal seria o de que todo dia fosse para questionarmos o que estamos fazendo com nossos corpos e nossas mentes, ou, melhor ainda, o que nos ensinam a fazer conosco. Mas não é assim e, mesmo hoje, existem milhões de pessoas que vão chorar ao se olhar no espelho, e outras tantas que vão pular uma refeição. Meu coração -como sobrevivente de uma infância traumática e um transtorno alimentar -está com essas pessoas.

A minha história não é especial. Eu era uma criança que não era magra. Eu não era gorda, mas eu não me lembro de jamais me sentir confortável na minha própria pele, sempre me comparando com outras meninas, sempre observando o tamanho das partes do corpo delas e o tamanho das minhas. Mas num padrão de beleza facista, (que já atingia crianças, vejam só) eu era gorda. Eu era um “caminhão da Vale”. Eu era uma baleia, porca (ou, em inglês, “pig”, como a galera do curso de inglês aprendeu a me chamar), nojenta. Eu nunca ia ter um namorado. Eu nunca iria poder usar as roupas que queria. Minha mãe me disse, aos meus 10 anos, que se eu tivesse 15, ela diria que eu estava grávida (por causa da barriga). Me ensinaram a çontar calorias bem novinha, e comida virou um sinônimo de culpa para mim. Parece horrível para quem não viveu isso… e, se você que está lendo, é uma das pessoas que nunca viveu esse pesadelo (quando sequer contei tudo), eu sinto informar que não sou especial por isso. Existem muitas pessoas como eu por aí, que ouviram as mesma coisas, ou muito pior. Somos muitxs, infelizmente.
Eu não me lembro da primeira vez que comecei com comportamentos bulímicos, mas eu era nova demais para sequer estar preocupada com algo além de brincar e estudar. acho que sequer havia menstruado. Não quero entrar em detalhes sobre isso, mas o que importa é que eu sobrevivi. Não falo isso querendo dizer que sou alguém que quase morreu por causa desse transtorno alimentar e que tem uma foto de “antes” e “depois”. Não tenho nada disso, não é a minha experiência.
O que eu tenho da minha vida, como alguém que foi vítima de um padrão de beleza que me sufocou e me drenou, é que eu estou aqui, nesse 6 de Maio, Dia Internacional Sem Dieta. E que estarei aqui a amanhã, com as mesmas dores de quando eu tinha 13 anos e chorava na frente do espelho, porque o mundo não me permite deixar pra trás a insegurança de não ser uma mulher de revista, de não ser a minha prima, a minha colega de sala… de não ser qualquer outra pessoa que não seja a baleia da 4ª série, ou do 2º período da faculdade. De não ser, enfim, magra.
Aprendi com o feminismo e outras lutas que não é normal viver o que vivemos. Que não é justo e que temos o direito de dizer “não” a padrões de beleza que nos oprimem e magoam. Eu decidi dizer “não”, mas não foi há um ano e meio, quando procurei ajuda médica, e nem hoje que me libertei. Talvez eu nunca me liberte, mas eu espero que outras pessoas não ouçam que ninguém vai amá-las por serem gordas. Eu espero que comprar um jeans não seja doloroso, e que elas repitam o almoço sem medo.
Acredito que isso seja possível. Um dia de cada vez. Uma dieta a menos de cada vez.
Nem sempre damos conta de lutar porque somos humanos. Existem dias em que um discurso body-positive não me traz nada de bom, porque minhas cicatrizes estão abertas demais, e esses são dias difíceis. E está tudo bem em ter dias assim, porque o apoio não é muito grande. Mas existem outros dias em que ver a confiança e a luta de outras pessoas – em especial outras mulheres – me dá força e um bocado de esperança. Espero que, dia a após dia, e, aos trancos e barrancos, a minha experiência e a de tanta gente seja, de fato, passado.
(Essa é só a minha experiência e como decidi encarar essa situação.)

por Carol Marques Lage

contato: ponycase@gmail.com

http://www.facebook.com/carol.marques.meow

[GUEST POST] Isto não é uma opinião

Amanhã, dia 21 de março, é o Dia Internacional contra a Discriminação Racial. Tendo em vista os recentes acontecimentos, trazemos o texto do Felipe Moreira:

Gostaria de trazer uma reflexão acerca de episódios, a princípio desconexos, mas que, se bem sucedida esta tentativa, poderão ser unidos sob um raciocínio comum: o do bem estar pessoal e social. Falo dos episódios recentes sobre o trote racista praticado na UFMG (informações aqui) , a discussão em torno da propaganda de certo sabão em pó, feita no dia internacional da mulher e do shampoo de uma marca avícola qualquer, divulgada recentemente. Tudo isto regado à boa e velha crítica descabida de que “as pessoas não estão relaxadas o suficiente” ou “à toas demais” e por isso perseguem uma espécie de política do correto (juntamente com o “ativismo de sofá”) infértil, mais estética do que prática. Uma grande briga neste sentido tem sido a questão do stand up e suas “piadas” de cunho preconceituoso e como a sociedade civil tem respondido à isso (um caso específico pode ser discutido neste link). Por trás de todos estes casos, jaz a polêmica do humor, da comédia, da ironia e, de fato, quais seriam seus limites e possibilidades. Não estou aqui para reabilitar o humor de ninguém nem apontar quais variáveis você pode utilizar para “ser engraçado” para alguém, mas justamente pra tentar mostrar que existe um alvo nas piadas, ninguém conta algo engraçado, “causos” ou histórias, sem ter personagens e um público alvo… senão ficaríamos sozinhos em casa contando piada para o espelho, não é mesmo? Há uma atitude de defesa frente à piadas que não dão certo, como no caso do trote racista. É a ideia de que “foi só uma brincadeira” agindo como escudo pra nos redimir da auto-reflexão, afinal, ser introspectivo e se reavaliar constantemente dá muita dor de cabeça. É o mesmo caso quando achamos que uma pessoa se ofender por uma propaganda ‘x’ é exagero demais, não havia nada de errado nela, é hipérbole, isso não é machismo/sexismo. Mas, para aquela pessoa, foi. Do mesmo jeito que alguém se ofendeu (junto com toda uma etnia) com um trote universitário. Tal como um gênero se sentiu ofendido por declarações e piadas de certo humorista. Ou seja, precisamos sair dessa atitude nossa de defesa e começar a pensar em quem atingimos quando proferimos certos discursos, pois piadas e brincadeiras também são discursos. Somos responsáveis pelo que colocamos no mundo e palavras tem poder, precisamos reconhecer isso. Não é possível apagar o que foi dito, principalmente da cabeça de quem lesamos. E mais importante, não podemos deslegitimar a luta de nenhuma pessoa, grupo ou segmento com argumentos rasos como “estão procurando pelo em ovo” ou que é “falta de louça pra lavar”, pois essas afirmações tem origens nefastas e fascistas. Desautorizam e retiram a autonomia das pessoas para decidir o que é importante para elas e pelo que é importante lutar já que define uma série de coisas que valem a pena de se correr atrás e outras que não. Argumentos assim definem agendas autoritárias. Não existe diálogo em cenários ditatoriais e, felizmente, vivemos numa sociedade plural onde existem pessoas lutando desde a abolição das práticas manicomiais à um apelo por maior ética na mídia: lidemos com isso. Resumindo, precisamos pensar um pouco mais antes de emitir opiniões, ninguém é obrigado a ser esclarecido o tempo inteiro e ter habilidade para falar de qualquer assunto. Podemos nos informar, repensar, pensar duas vezes antes de jogar no mundo nossas palavras. E principalmente quando não só estamos por fora de algum assunto mas também não fazemos parte do universo das pessoas protagonistas ou alvos deste assunto. Precisamos ter em mente que nenhum montante de informação vai nos colocar no salto-alto de outra pessoa, que precisamos ter humildade pra reconhecer nosso contexto específico de vida e possibilidades, nossos privilégios. Não, o mundo não está ficando sem graça e não, o humor não vai morrer. As coisas mudam, melhoram, evoluem… não estamos policiando ninguém, só exigindo qualidade sem coerção.

Alguns links interessantes para refletir:

Documentário “O riso dos outros”: http://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg

Sobre a questão dos privilégios: http://www.catolicas.org.br/noticias/conteudo.asp?cod=3775

Saindo de si: http://tamarafreire.wordpress.com/2012/08/15/essa-conversa-nao-e-sobre-voces/

Dia Internacional da Mulher

É amplamente conhecido que dia 8 de março é o dia internacional da mulher. O que talvez não seja tão compreendido é o significado desta data. Eu, Felipe, me proponho a fazer algumas considerações que espero sejam úteis para ajudar os homens a entenderem alguns aspectos desta data.

O primeiro grande questionamento é: quais são as mulheres que são prestigiadas pela data? Creio fortemente que o 8 de março deva ser um dia em que nos questionamos as construções dos gêneros; quem é mulher? O que torna uma pessoa uma mulher? Determinadas características tornam alguém mais mulher que outras? Talvez os questionamentos pareçam absurdos se postos assim, porém surgem de diversas discussões e, inclusive, de homenagens ao dia da mulher.
A categoria de mulher (assim como a de qualquer gênero) não pode ser restringida por características físicas, psicológicas ou biológicas se desejar ser tida como universal, A definição de mulher não pode apagar mulheres negras, proletárias, trans* ou com deficiência. Esta discussão é tida em maior profundidade no primeiro capítulo de Problemas de gênero da Judith Butler.

Dia 8 de março: não dê bombom, nem florzinha. Dê respeito.

O segundo grande questionamento é: esta noção de presentear e parabenizar mulheres no dia da mulher apenas reforça a necessidade de uma data política para discutirmos gênero na sociedade. Apesar de que o nome talvez engane a primeira vista o dia internacional da mulher é uma data sobre mulheres, homens e pessoas que se identificam fora deste binário. É uma data para questionarmos os signos que associamos a cada um destes gêneros, é uma data para questionarmos os papeis de gênero, é uma data para lutarmos todos em uma só voz pela equidade.
Dar presentes ou parabéns não apenas tira o foco da luta que ainda temos a travar, como acaba, ironicamente, reforçando diversos padrões machistas. As supostas homenagens servem para objetificar mulheres, para definir padrões de feminilidade, que excluem e marginalizam cada vez mais as mulheres que não estão inclusas nestes padrões. As mulheres que se contentam com presentes, ou que são levadas a crer que esta é a proposta da data, acabam não se impondo e lutando por direitos iguais.

O terceiro grande questionamento é:  não adianta protestar e dizer que luta junto no 8 de março e ignorar a luta pelo restante do ano ou não rever suas próprias atitudes. Nas lutas das minorias vejo muitas pessoas dizendo que apoiam a luta por direitos iguais, mas como se em menção a algum direito subjetivo, que apenas faz sentido (e é considerado um direito) na mente desta minoria. Estas pessoas que se dizem aliadas convenientemente parecem ignorar que a mudança acontece a partir de pequenos gestos cotidianos e que todo mundo faz parte da construção de um mundo melhor.
Talvez estas pessoas acreditem que a igualdade só é legítima se assegurada por lei, que esta luta por direitos seja judicial. As leis se fazem necessárias ao institucionalizar um comportamento que não está internalizado no cotidiano das pessoas. Ou seja, apesar de ter uma demanda contemplada por uma lei ser algo positivo, esta só se faz necessária pois as pessoas não questionam seus próprios atos.

O dia da mulher, por seu caráter político, não deveria ser restringido a apenas um dia do ano. A luta contra as diversas opressões que nos cercam; que se não nos afetam diretamente, afetam as pessoas ao nosso redor; precisa ser todos os dias. Não podemos nos calar frente a qualquer tipo de discriminação, devemos nos tornar nós mesmos, em corpo e alma, verdadeiros campos de batalha por um mundo melhor.

Heteronormatividade?

Essa imagem apareceu na minha timeline sendo elogiada por supostamente ir contra a heteronormatividade das propagandas de camisinha. Duas meninas cis brancas de beleza padrão e devidamente photoshopadas brincando com chantilly no sofá. Duas meninas de aparência heteronormativa e cisnormativa.

Problemas: a Prudence (e acho que todas as outras marcas de camisinha no Brasil) É uma empresa heteronormativa. Ou no mínimo falocêntrica. Ela vende preservativos feitos pra usar com pênis. Mesmo a camisinha feminina, que é bem difícil de encontrar por aí, não serve pra sexo oral em mulheres cisgêneras. A Prudence não vende Dental Dams e não faz propaganda pras outras letras invisibilizadas de lGbt*.

Tendo isso em vista, fica claro o público alvo das campanhas da Prudence: homens cis. Vamos combinar que a gente ainda tá longe de achar normal e encorajar meninas a comprar camisinha (que mulher nunca passou constrangimento na farmácia ou no mercado tentando comprar camisinha?), e que a sexualidade das mulheres é geralmente ignorada pelo marketing. O foco é outro. Propagandas pra mulheres supõem que sejamos todas heterossexuais e queiramos relacionamentos sérios, e atacam a auto estima: é sempre algo do tipo “Se você não comprar nosso produto, nunca vai encontrar o príncipe encantado. Ou pior: vai encontrar, e não vai estar preparada. Depilada, maquiada, magra, bem vestida, de cabelos devidamente alisados, penteados, clareados. E ele não vai olhar pra você.”

A foto pode não exibir uma das características típicas de pornô lésbico feito pra homens hétero – as meninas olhando pra câmera convidativamente – mas o resto está todo ali compondo a fantasia masculina, e os comentários na foto evidenciam isso: “O la em casa” “por mim legal! Ainda mais com essas gatas show de bola!” “sendo nesse sofá qualquer sexta feira fica ótima” “só faltou eu ai noi meio néh gatinhas!!” “Vou lamber vcs duas.” (tudo sic), todos feitos por homens. Eles eram o público alvo (o que uma lésbica cisgênera faria com uma camisinha pra pênis ali naquele contexto?) e foram agradados pela imagem. Ponto pra Prudence.

Enquanto respeitar a sexualidade gay é interessante para a empresa, já que pode ser usada pra vender camisinhas pra homens, a sexualidade lésbica é desrespeitada rotineiramente pelo mesmo motivo: vender camisinhas pra homens. Essa imagem da Prudence é só mais um exemplo da fetichização da identidade lésbica promovida pela mídia e pela publicidade pra vender algo pra homens.

A quebra da heteronormatividade envolve muito mais do que simplesmente retratar casais homossexuais. É necessário desconstruir toda a estética heterossexista que, como evidenciam os comentários, apela tanto aos homens heterossexuais e à heterossexualidade que acaba por construir mais um espaço que as lésbicas não se sentem confortáveis para ocupar. Não é só por retratar supostas lésbicas que a campanha deixa de ser heteronormativa.