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5+ formas de fazer o mundo mais inclusivo para pessoas trans*

O post de hoje é uma tradução de um post do It’s pronounced metrosexual, blog mantido pelo Sam Killerman, e dá algumas dicas de como podemos tornar o mundo melhor para pessoas trans*.

“Desculpa, professor(a), onde ficam as crianças que preferem se identificar como “incríveis” que por gênero?”

Nós vivemos em um mundo que reconhece duas opções de gênero. Se você não for exatamente “homem” ou “mulher”, vai ter dificuldade para encontrar o seu lugar, porque atualmente não existe um. Vamos mudar isso. A seguir está uma lista de sugestões para tornar o mundo um pouco menos binário e muito mais inclusivo para pessoas trans*. Leia, viva e faça sugestões nos comentários.

1. Leia a nossa lista de privilégios cisgêneros (link [en] [pt]) e a compartilhe com seus amigos.

Consciência é o primeiro passo para confrontar o problema. Se as pessoas não sabem que existe (assim como a maior parte das pessoas não sabe sobre as questões trans*), não vai haver nenhum movimento para se criar uma solução. Leia a lista de 30+ (e aumentando!) privilégios cisgêneros (em inglês) que foi compilada, comente com quaisquer sugestões, e, o mais importante, compartilhe. Mande para os seus amigos, pais, filhos, congressistas, qualquer um e todo mundo. De verdade. Em especial os congressistas (repare no marcador de plural).

2. Coloque na sua cabeça que a ideia de gênero não está atada aos genitais.

Continuando do último ponto, seria interessante se você entendesse o que, exatamente, transgeneridade é. Bom, pra sua sorte, existem diversas fontes de material sobre identidade de gênero. Leia e você terá uma ideia melhor do que quer dizer ser transgênero ou genderqueer. Compartilhe com os seus amigos e eles saberão também. Assim todos vocês saberão o que quer dizer que “suas roupas não têm obrigação moral de combinar com a sua anatomia interna.”

3. Invista seu dinheiro em empresas que sejam amigáveis com pessoas trans*.

Compre em lojas que tenham banheiros unissex. Compre produtos de companhia que tenham proteções pros funcionários trans*. Se você não tem certeza de quais empresas são ou não amigáveis confira a lista da HRC’s (nos EUA, em inglês). Eles traçam o perfil de organizações e as qualificam de acordo com o tratamento a funcionários LGB e T. A política muda com a opinião pública: se nós deixarmos claro que preferimos companhias que sejam amigáveis com pessoas trans*, mais companhias se esforçarão para serem assim.

4. Torne o seu local de trabalho ou organização inclusiva para pessoas trans*.

Continuando o número anterior, o seu empregador oferece um plano de saúde inclusivo para pessoas trans*? Uma pessoa trans* se sentiria confortável trabalhando lá? Levando seus parceiros lá? Existem proteções nos contratos de emprego que previna o uso de terminologia errada baseada na identidade de gênero? Se não, por quê? Fale com sua chefia. Fale com o proprietário. Ter um ambiente amigável a pessoas trans* é benéfico tanto para o empregador quanto para o empregado, pois assim eles estarão aptos a atrair e reter grandes talentos, independente de como a pessoa se identifica.

Ainda, quer você tenha um emprego ou ainda esteja no colégio, você provavelmente já preencheu um formulário que perguntava seu gênero/sexo (e que provavelmente não era muito inclusivo para pessoas trans*). Confira este artigo (em inglês) sobre como ser inclusivo perguntando gênero em um formulário e implemente a ideia onde quer que seja possível.

5. Interaja com pessoas individualmente.

Existem boas chances de que você conheça alguém que se identifique como trans*. De fato, existem boas chances de que você conheça várias pessoas. Você sabia disso? As chances são de que você não sabia. Aqui vai um fato simples para você: é nossa tendência interagir com pessoas baseados na nossa percepção do(s) grupo(s) que elas pertencem. Por exemplo, se você percebe alguém como menino você vai agir diferente com ele do que você iria com alguém que você percebe como menina. Pare com isso. Ou ao menos tente. Se você está incerto de como fazer isso, comece com a Regra de Platina (em inglês). Se você precisar de ajuda depois disso peça. E, pelo amor de Buda (o Buda é um cara bem legal), se você for usar pronomes generificados (ele/ela) tenha certeza de que você está usando os pronomes certos. Uma regra geral: use o pronome que se alinha com o gênero com o qual a pessoa se identifica.

6. Faça perguntas, sobre si e sobre as outras pessoas.

Transfobia é um obstáculo difícil de superar para a criação de um mundo mais receptivo para pessoas trans*. Tanto quanto a ideia de que uma pessoa não é exatamente (ou não era exatamente) “homem” ou “mulher” é assustadora, eu nunca encontrei uma pessoa que não tenha mudado de ideia depois de alguns minutos de conversa. Depois que as pessoas percebem que ser trans* não é muito diferente de ser “normal” [nota do tradutor: cis] (de fato não é nada diferente), você pode ver a transfobia começar a recuar. Investigue o seu próprio gênero. Use o material disponível para te ajudar. Eu aposto o meu dente da sorte (o bom) que você não é 100% homem mesmo que a sua camiseta diga que sim

Love your body day

Hoje é o Love your body day [Dia de amar o seu corpo], campanha para estimular que as pessoas mandem fotos de seus corpos mostrando que todos os corpos são bonitos. O cartaz da campanha de 2009 faz um trocadilho com o provérbio em inglês e diz que a beleza está no “eu de quem vê”, ao invés de “no olho de quem vê.”

Somos constantemente bombardeados com diversas instruções de como devemos, ou não, ser. Padrões de beleza são propagados de forma opressiva e reforçam indiretamente diversos preconceitos internalizados ao validar uma beleza sobre a outra. Em linhas gerais o ideal de beleza brasileiro é o europeu, por mais que a nossa população seja miscigenada e poucas pessoas se enquadrem nesta categoria. O padrão de beleza nacional, assim como o mundial, é submisso à ditadura da magreza, e prega que quanto mais magra a pessoa for “melhor”.

Esta definição rígida de como devem ser os nossos corpos causa todo tipo de mal-estar psicológico, desde o incômodo de se olhar no espelho, passando pela fixação em dietas de emagrecimento e culminando na exclusão social de diversas minorias que não se incluem na norma. Esta eterna inconformidade com um padrão de beleza também alimenta uma indústria milionária que ensina exercícios físicos, dietas milagrosas, cosméticos, procedimentos cirúrgicos, entre diversas outras facetas deste mercado.

Intrinsecamente relacionado a este padrão opressivo de beleza está o binário de gênero. Algumas características tidas como bonitas em homens não são bem vistas em mulheres, e vice-versa. Esta diferenciação da beleza masculina e da beleza feminina cria uma forte pressão popular para que as pessoas que se adequem a um dos gêneros. O sentimento subjetivo de precisar alinhar a sua identidade de gênero com a sua expressão de gênero em um dos extremos é o que chamamos de disforia*[1] de gênero.

A patologização das identidades trans*, e por extensão do gênero como um todo, é especialmente maléfica ao criar mecanismos sistemáticos que criam essa sensação de estranheza com o corpo ao mesmo tempo em que impede os procedimentos de adequação. Coloca em risco as pessoas que assumem tratamentos por conta própria, que muitas vezes acabam optando por métodos ilegais ou obsoletos, devido ao engessamento do sistema médico.

Portanto fica a dica do dia de hoje: ame o seu corpo. Amar o próprio corpo é um processo lento, muitas vezes oneroso e que precisa ser sempre atualizado, entretanto existe uma enorme satisfação pessoal ao aceitar o seu copo do jeito que é. Nossos corpos sempre serão usados contra nós como ferramenta de opressão, então se libertar destes esteriótipos patriarcais é uma forma de nos afirmarmos perante nós mesmos e a sociedade. Love your body.

[1] Disforia* aqui é usado de forma diferente do discurso médico. Disforia* seria a direta experiência binarista-cissexista da norma cisgênera. Ou seja, a norma orienta um binarismo – se falhamos em cumprir nos sentimos socialmente e morfologicamente inadequad@s. Esse sentimento é o que chamamos de disforia*. A disforia* só existe porque existe uma norma que regula comportamentos e morfologias. Só existe porque a sociedade é baseada da cisnorma, ou seja, no alinhamento compulsório morfologia-gênero. Isso não significa que o sentimento disfórico seja menos real ou passível de desconsideração, mas sim que o reforço das normas binárias cissexistas produz e reproduz a disforia*. Não é, como acredita a ciência, um sentimento puramente subjetivo das pessoas trans*, é um sentimento produzido por uma norma social. (via http://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/)

O que é cissexismo?

Muitos de vocês nunca devem ter ouvido falar em cissexismo, ou talvez até tenham visto o termo de relance em algum comentário ou discussão. Não tenho a pretensão de explicar o que é cissexismo, mas contextualizar o cenário atual em termos da necessidade da despatologização das identidades trans.

A criação do termo “cisgênero” surge como uma resposta à segregação das pessoas trans* na sociedade, com o intuito de demonstrar a arbitrariedade do conceito, ao se considerar que o gênero é construído socialmente, não determinado biologicamente. É importante ressaltar que a criação do termo também serve para sinalizar, e desconstruir, o sistema binário (cis-trans) que existe, ao tornar exóticas as identidades trans, e, portanto, necessário tratamento, ao mesmo tempo que naturaliza as identidades cis. Etimologicamente falando o termo é apropriado, pois o prefixo trans- é um elemento que significa além de, para além de, em troca de, ao través, para trás, através. Em contrapartida, cis- é o prefixo empregado nos nomes geográficos, e que significa para cá ou aquém de. Esta correlação de prefixos também é utilizada em isomeria geométrica (ou cis-trans), nas aulas de química. Um efeito curioso é que ambos os prefixos só fazem sentido em relação a um eixo, podendo ter valores diferentes de acordo com a posição relativa do observador.

De forma bastante resumida uma pessoa cisgênera tem o sentimento subjetivo de pertencer ao gênero a qual foi designada ao nascer. Vale ressaltar que a identidade de gênero não tem qualquer relação com a orientação sexual.

O cissexismo é a forma de sexismo que atinge diretamente as pessoas que estão sob o guarda-chuva trans*. São as microagressões cotidianas que estas pessoas passam, como, por exemplo, na emissão de documentos, na invalidação do seu gênero, na pressão social para que estas pessoas se adequem ao binário de gênero (a crença de só existem homens e mulheres, e que estes são mutuamente excludentes) ou até para ir ao banheiro. O cissexismo, muito além do seu preconceito pessoal (ou da ausência dele), está localizado na opressão sistemática. Uma das principais ferramentas de opressão institucionalizada é a patologização das identidades trans, ao permitir todas estas microagressões sob a luz da lei, da medicina e da tríade psi (psicologia, psiquiatria e psicanálise).

Não lutar ativamente para desmantelar um sistema de opressões do qual você se beneficia é ser conivente com este. Em outras palavras, você está perpetuando a opressão, desconsiderando se você sente ou não afeto pelas pessoas oprimidas.

Para uma compreensão maior e melhor do que é o cissexismo eu recomendo o texto escrito pela Hailey, do Transfeminismo. Leia em: http://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/