A construção social do sexo

Traduzido de http://transdykeprivilege.tumblr.com/post/71341524775/sex-is-biological-go-open-a-biology

Anônimo perguntou:

sexo é biológico??????????????? vá abrir um livro de biologia?????????????????? não é uma construção social ‘cê ‘tá pensando em gênero????????????

eu espero que a superabundância de interrogações seja um indicativo de que você sabe em algum nível do tamanho da besteira que você disse.

[alerta de conteúdo: discussão sobre genitália e órgãos internos]

primeiro de tudo, quando você diz “sexo” eu presumo que você está falando no que é chamado de “sexo biológico”, “dimorfismo sexual”, ou “diferenças sexuais.” especificamente o que você está tentando dizer ou implicar é a existência material de duas categorias de corpos: masculinos e femininos. vou supor que você está se referindo a cromossomos já que essa é considerada a base ‘mais fundamental’ do sexo por pessoas transmisóginas desde pelo menos 1979.

um cromossomo sexual é uma mancha com uma aparência específica que aparece em um cariótipo, ou um teste envolvendo o tingimento e a visualização microscópica de cromossomos. cromossomos são pequenas manchas de gosma dobrada que se bem desenrolada vira uma cadeia de DNA—que é uma cadeia de pares de bases nitrogenadas (guanina e citosina, adenina e timina). o que você vai encontrar lá são histonas em que a cromatina (material genético um pouco estendido) está enrolada. adicionalmente, você vai achar metilação, e toda outra forma de pequenos químicos e partículas porque adivinha só? o DNA não é um sistema de codificação linear. o DNA codifica em trechos—geralmente trios que são lidos como determinados aminoácidos, que então se juntam e formam as peças pra formar proteínas. o problema de codificar em trios é que pode se tornar super complexo. então

AGGCTTATTAGGCTCTA

pode, por exemplo, ser codificado ao mesmo tempo como

AGG CTT ATT AGG CTC ta
e
a GGC TTA TTA GGC TCT a
e
ag GCT TAT TAG GCT CTA

só pra citar um caso. por isso existem sinais indicando onde a codificação deve começar, mas esses sinais podem se mover, ou ligados e desligados. essa é uma das funções da metilação—ela pode ligar e desligar os indicativos de onde começar a codificação da cadeia. a metilação de qualquer parte de um filamento de DNA pode ser ativada por todo tipo de coisa. um estudo encontrou relação as taxas de diabetes e níveis de estresse nas avós das pessoas com diabetes—ou seja, o estresse se relacionava com diabetes duas gerações depois. só pra dar uma ideia do grau de complexidade da codificação.

e as complexidades continuam a cada nível. As proteínas que são formadas por sequências de DNA podem se juntar de formas diferentes dependendo da composição química do meio. o DNA em si—um objeto tridimensional no mesmo meio—pode interagir fisicamente com as proteínas ou consigo mesmo. mas também lembre-se de que estamos falando de um gosma química sujeita a condições ambientais, que incluem todas as formas de mutações. algumas vezes a coisa desanda (não vou falar que ‘dá errado’ porque isso presume que as mutações são ‘ruins’ o que é besteira, elas são necessárias para a adaptabilidade genética—e também porque isso significa aplicar noções antropocêntricas de funcionalidade, de comportamento ‘certo’ ou ‘errado’, da gosma) e AGG CTT ATT perde uma letra e vira AGC TTA tt (o que é conhecido como mutação por mudança da matriz de leitura—ainda existem outras coisas como mutações pontuais). além, as coisas ficam estranhas quando o DNA está sendo replicado—não é um processo perfeito de leitura, é um monte de reações químicas flutuando em gosma. e acontece milhões de vezes, então a probabilidade de que as coisas deem errado de diversas formas é alta.

mas até em níveis além da codificação de DNA, para os cromossomos, as coisas são confusas. porque os cromossomos se juntam a partir de uma distribuição mais livre da gosma quando a célula está se dividindo, e as coisas podem dar errado nesse processo—ficar no lugar errado, ficar embaralhado no outro lado, etc. nesse sentido, existe um processo chamado crossing over que ocorre na replicação da célula durante a metáfase (enquanto os cromossomos estão emparelhados no centro da célula antes da divisão do núcleo) em que os cromossomos trocam pedaços entre si sem nenhum motivo em especial. e também é bem aleatório onde acontece, o que quer dizer que códigos importantes podem ser cortados ao meio, ou novos códigos podem ser criados.

tudo leva ao fato de que é incrivelmente improvável esperar algum tipo de distribuição meio a meio significativa entre “cromossomos XX” e “cromossomos XY”. o que serve pra realidade, porque na realidade nós observamos toda forma de variação, exatamente como seria de se esperar. agora, que acontece quando tem variação? na maior parte, as coisas só acontecem. são só células. elas fazem a coisa delas, criam pequenos órgãos, replicam pra que os órgãos cresçam e fiquem mais específicos, etc. então talvez agora você comece a ver por que esperar que elas se comportem de forma organizada em dois padrões é completamente incorreto? ou por que é que no mundo real observamos uma variedade de corpos humanos além de só Barbies XX e Kens XY? mas mesmo olhando além disso, o que está de fato acontecendo com o famoso sistema reprodutor? Bom, algumas dessas células têm a habilidade de gerar gametas—meio como se fossem meias células— que podem se unir a outros gametas e virar um outro aglomerado de órgãos. isso é o que a fertilização e a gravidez são. é tudo que ‘tá envolvido. genericamente falando, um tipo de gametas aparecerá em corpos de pessoas nas quais as células tendem a ter a gosma que aparece de uma certa forma no cariótipo, enquanto que o outro tipo de gametas aparecerá em corpos de pessoas em que as células tendem a ter a gosma que aparece de uma forma diferente no cariótipo, com um monte de variações e possibilidade das coisas serem interrompidas. então por que é que isso sequer importa pra nós? por que é que eu estou aqui às 4 da manhã da noite de natal com uma caixa de cheezits e uma taça de vinho respondendo porcaria que gente anônima manda sobre isso? porque a partir dessa tendência genérica de corpos as pessoas construíram a noção de sexo.

o patriarcado, em sua base, é um sistema de exploração econômica que consiste em um grupo de pessoas recebendo trabalho que tem valor, e outro grupo de pessoas recebendo trabalho que não tem valor. isso foi mapeado em dois grupos gerais de pessoas, aquelas que tendem a ter um tipo de gameta e aquelas que tendem a ter outro tipo, e as pessoas que vieram com a ideia de que o seu trabalho tinha valor eram ‘masculinos’, ‘homens’, etc, enquanto aquelas que foram forçadas a ser objeto de exploração e violência eram ‘femininas’, ‘mulheres’, etc. como parte de valorizar o trabalho masculino, os homens construíram uma explicação para a iniquidade que eles alegavam derivar da natureza da realidade física. especificamente a noção das ‘diferenças sexuais’, ou a tendência das pessoas de produzirem diferentes variedades de gametas. para melhor justificar e valorizar a exploração das mulheres, os homens construíram toda a noção de indivíduo ao redor disso, um ideal que para eles aconteceu de estar contido em um órgão que a maioria deles usava para distribuir gametas. e para justificar a violência que eles estavam fazendo, argumentaram que existiam naturalmente apenas duas categorias de pessoas, agrupadas com base no trabalho realizado/posição durante o sexo/produção de gameta/etc (todas essas coisas foram unificadas e receberam ênfases diferentes ao longo do tempo, ajudando a mistificar a falsidade da distinção).

a noção de que certos tipos de órgãos correlacionam certos tipos de comportamento, certos padrões econômicos, etc, é um produto de um sistema social de opressão. NÃO é fundada em qualquer tipo de ‘fato biológico’ porque antes de qualquer coisa ‘fato biológico’ não existe. um órgão não é um significante exceto no contexto de uma ‘biologia’ socialmente construída que é especificamente construída como uma justificativa do patriarcado. quase literalmente. eu trabalhei com biologistas (sim, anon, acontece de eu já ter de fato aberto um livro de biologia algumas vezes na minha vida) e uma coisa que eu posso dizer definitivamente é que, assim como a maioria dos cientistas, não pensam profundamente em como os tipos de questão que levantam e as formas de interpretar os dados são estruturados pelo mundo. melhor das hipóteses fizeram um ou outro curso obrigatório de bioética na graduação. então quando tentam interpretar dados matemáticos estão fazendo de uma forma que já presume a questão real como respondida. encontram dimorfismo sexual não porque está nos resultados dos dados, mas porque estava pressuposto na hora que levantaram os problemas—se você perguntar ‘qual sexo é melhor em matemática?’ você nunca vai encontrar evidência de que ‘sexo’ é uma construção sem sentido. isso é o que muito da ‘verdade científica’ é, de fato—as coisas que já eram aceitas quando as pessoas fizeram perguntas mais complexas, e que só foram descartadas, se é que foram, quando todas as respostas a todas as perguntas complicadas continuamente revelaram algo que enfraqueceu o modelo anterior (que, por acaso, está acontecendo agora com a noção de sexo—isso mesmo, até cientistas patriarcais estão chegando à consciência da tremenda besteira que isso é, embora fazendo o maior desvio possível e ainda assim causando o máximo de dano que puderem enquanto isso).

mas o que podemos ver disso tudo é que gênero precede sexo. gênero é uma forma de organizar a esfera social, e dados biológicos não são dessa forma. gênero, em outras palavras, é a categoria fundamental de sexo do patriarcado. agora, pode-se dizer que vivemos em um mundo social, que nossas subjetividades são socialmente construídas, e assim para nós um órgão é um significante. claro que isso é verdade, mas é preciso que se reconheça sua natureza socialmente construída para perceber que antes de qualquer coisa não estamos analisando aqui um sistema rígido. não é simplesmente um questão que para a realidade biológica um certo cromossomo ou um certo órgão conduz a um certo lugar dentro do patriarcado, e da mesma forma não é apenas uma questão de dizer na construção social um certo cromossomo ou um certo órgão conduz a um certo lugar dentro do patriarcado. se estivermos cientes da complexidade envolvida em constituir socialmente o que basicamente é um punhado de gosma (células) que gera ou não mais gosma (bebês, pessoas, etc) como pertencimento a uma categoria binária e um tanto rígida, pode-se mais facilmente perceber como a construção social pode escorregar algumas vezes, e resultar em uma pessoa que, por exemplo, tem um tipo de órgão, e ainda assim teve sua identidade socialmente construída dentro da categoria de um tipo “diferente” de órgão (dentro das noções patriarcais que ‘diferença sexual’). de fato, só se pode falhar em reconhecer isso se partido do lugar dissimulado de assumir a priori que a pessoa em questão está enganada ou enganado, ao invés de relatando a realidade tão bem quanto a língua permite. e o uso de inversões dessa língua para relatar realidades o melhor possível é um esforço de redirecionar e ganhar controle sobre o biopoder assim como ele tem sido usado contra nós. não é nem mais e nem menos legítimo que a língua do patriarcado, exceto se a pessoa crê que que seja legítimo apoiar o patriarcado (argumento que sexo é ‘real’) ou rompendo com ele.

o que, então, é sexo? é a forma como as pessoas falam sobre punhados de gosma, e especificamente a forma como esses punhados são categorizados em dois tipo, em claro desafio à realidade, com o propósito expresso de perpetuar o patriarcado.

então, sim, sexo é biológico, no sentido que os termos do sexo são codificados no discurso de ‘biologia’, que é em si socialmente construída pelo patriarcado.

sexo é uma construção social, essa é a porra da minha palavra final nessa bosta.

NÃO me mande essa bosta ignorante de novo.

Desenhando a falsa simetria

Se você esteve online nas últimas duas semanas você deve ter ouvido falar no Lulu. É um aplicativo para Android e iOS em que mulheres podem avaliar parceiros sexuais antigos e atribuir notas à sua performance, além de possuir algumas tags pré-definidas.

Muito se fala nas tags do Lulu, em especial a polêmica “vale menos que um pão na chapa”, mas muitas das tags (apesar de serem agregadas entre positivas e negativas) são de caráter contextual. Alguns exemplos de tags são: curte Romero Britto, usa Raider, acende um cigarro no outro, 4 e 20, três pernas, fica na dele, mais pop que o papa, cavalheiro e ursinho. Acredito que nenhuma dessas informações é inerentemente ruim ou boa, mas que pode ter seu caráter variável de acordo com a situação.

A criadora do aplicativo diz que a sua intenção é virar a mesa nas conversas de bar. Muito se foi discutido a respeito, desde questões de privacidade no Facebook até diferentes formas de abordagem ao serviço e como este estaria inserido dentro da lógica patriarcal.

A discussão tomou ainda mais fôlego, especialmente nos meios feministas, com o surgimento do aplicativo que pretendia ser o seu equivalente simétrico: Tubby. A grande questão se concentra em uma falsa simetria entre mulheres avaliando homens e homens avaliando mulheres.

Não entendeu? Eu explico. O Lulu, apesar de nunca declarar, se pretende ser universal. O posicionamento é tão ingênuo que chega a soar infantil. Para a desenvolvedora todas as pessoas no Facebook são ou homens ou mulheres e são heterossexuais (de fato, as pessoas poderiam ser bissexuais/pansexuais sem grande perda de usabilidade). O aplicativo ignora pessoas homossexuais, não-binárias, assexuais e até mesmo crianças e idosas. É um erro grande e grave, mas é um erro extremamente ingênuo. Em contrapartida o Tubby é um aplicativo de caráter universal, mesmo que seus desenvolvedores, cegos por terem seu privilégio masculino questionado, não percebam.

Vivemos em uma sociedade profundamente enraizada no binário de gênero (ou seja, que acredita que só existem homens e mulheres) e que acredita que existem papéis claramente separados entre esses dois gêneros (mesmo que, contraditoriamente, a linha divisora se apresente em lugares diferentes de acordo com o contexto). Então desde que nascemos nos é ensinado que papel devemos exercer de acordo com o gênero que nos é atribuído no nascimento. Isso quer dizer meninas de rosa, meninos de azul.

Mais profundo que isso, quer dizer que a mulher tem sua sexualidade podada desde os primeiros anos de vida, é ensinada a não ser estuprada, é ensinada a cozinhar e cuidar da casa, é ensinada a se maquiar e se embelezar para agradar ao olhar masculino. Desde muito novas as mulheres são sexualizadas e precisam se acostumar a viver com o fantasma do assédio as perseguindo. Desde muito novas aprendem que se foram estupradas ou se sofrerem algum tipo de violência a culpa é dela porque estava de roupa curta, porque bebeu, porque resolveu sair sozinha a noite…

A sexualidade da mulher é sempre tão severamente policiada e punida que existem diversos casos de crimes contra mulheres que resolvem deixar antigos parceiros, o feminicídio disfarçado de crime passional. Outra forma de atacar a sexualidade da mulher é o que chamamos de “revenge porn”, material pornográfico divulgado por um (ex-)parceiro como forma de atacar a credibilidade feminina. É sobre esse pressuposto que se apoia a declaração de que lésbicas não gostam de homens porque “nunca foram bem comidas”, podendo culminar em casos de “estupro corretivo”. É porque a sexualidade da mulher é domínio público (exceto dela mesma) que caso ela sofra qualquer agressão a culpa é somente dela, que estava ciente de estar expondo a sua sexualidade e não fez nada para evitar isso (até porque tudo que ela fizer apenas reforça a própria sexualidade, nunca atenua).

Vivemos numa sociedade em que a mulher vale menos se tem sua vida sexual exposta, em que diversos níveis de xingamento são baseados nessa conduta (inclusive, o pior xingamento para ofender um homem é direcionado à sua mãe). Não existe uma postura inócua ou neutra em expor a sexualidade de uma mulher, porque muito da imagem que ela passa depende disso. A sexualidade e a vida sexual vão ser invocadas em diversas situações, mesmo que isso não influencie o tema em questão. Na hora de procurar emprego, na hora de ser avaliada pelo chefe, na hora de andar na rua, na hora de conhecer novas pessoas, na hora de ficar quieto no seu canto.

O Lulu é uma brincadeira inocente e ingênua, ainda que inconsequente. É uma forma de mulheres se unirem e trocarem opiniões entre si de quem elas gostaram de ficar e indicar para as conhecidas as maiores qualidades e os maiores defeitos dos rapazes. Conceito que já foi explorado de outras formas em outros meios. Entretanto a sexualidade feminina precisa e será sempre julgada. O Lulu falha por não saber onde se posiciona dentro da sociedade.

Numa sociedade machista e misógina como a nossa uma mulher só merece respeito se for casta, se não gostar de sexo e de preferência se só fizer para agradar aos homens. A sexualidade da mulher é estranhamente controlada por parâmetros ambíguos: espera-se que a mulher seja uma dama na sala e uma puta na cama.

Os desenvolvedores do Tubby sabem disso e deixaram explícito no beta do aplicativo. O critério de inteligência diminuía a nota da mulher, assim como desempenho e iniciativa. O critério de disponibilidade aumentava a nota. Ou seja, quanto mais disponível uma mulher estivesse para servir sexualmente “o seu homem”, melhor a nota recebida. Os desenvolvedores do Tubby diziam que as mulheres que se descadastraram do seu site “arregaram”, como forma de ofender a mulher uma última vez enquanto ainda havia chance.

Recentemente o Tubby foi proibido pela justiça e os desenvolvedores do aplicativo lançaram um vídeo “explicando” que tudo não passava de uma brincadeira, que o aplicativo “falso” servia para denunciar o sexismo e misoginia gritantes na nossa sociedade e nos alertar para as questões de segurança. Porque essa é a mentalidade brasileira, qualquer coisa pode (e até em algum grau deve) ser feita se for em nome do humor, se for engraçado. Acredita-se que toda e qualquer coisa é aceitável se for em nome de agradar o status quo e a sociedade hegemônica. E é por isso que, criadores cientes disso ou não disso, o Tubby é um aplicativo de caráter universal.

P.S.: Em relação à questão de privacidade que foi amplamente discutida devido ao surgimento destes aplicativos: eu não me importo em ter meus dados coletados e utilizados por empresas para segmentação de mercado. O meu maior problema é que as empresas vão descobrir que gosto de azul e vão me vender coisas azuis, mas não vão descobrir que eu sou pró-transfeminismo e contratar pessoas trans*, não vão descobrir que eu sou contra o binário de gênero e produzir brinquedos sem marcadores de gênero e não vão se aprofundar em nenhuma destas questões sociais. Todo o sistema de opressões reforça e é reforçado pelo capitalismo e não existe nenhum interesse em combater este sistema.

[GUEST POST] Consciência negra: dos racismos institucionalizados de cada dia

Post escrito por Azânia Nogueira

[Alerta de conteúdo: racismo]

A primeira metade do Dia 20 de novembro de 2013 mal acabou – é 12h40 quando inicio a escrever este “ensaio” – e já perdi as contas de quantos posts, tweets, entradas de blogs e comentários racistas eu li. Não me entenda mal, não é como se hoje fosse uma exceção à regra, leio esse tipo de coisa diariamente. Hoje, porém, o racismo de cada dia se disfarça de maneira ainda mais apurada, na ausência de necessidade de um Dia da Consciência Negra, afinal “somos todos da mesma raça” e precisamos mesmo é de “um dia da consciência humana” e “o que nos diferencia é a etnia”. A etnia é um conceito biológico e cultural, tem a ver com língua, cultura, genética. Lembro de um trabalho que uma professora de história uma fez requisitou em sala: traçar minha árvore genealógica e discorrer sobre a minha etnia. Enquanto alguns colegas apareceram em sala com o brasão da família e diziam com orgulho que todos os membros que a compunham ainda preservavam o sangue sem nenhum tipo de miscigenação, eu não sabia dizer com tanta certeza sobre a minha. Porque a minha família não vinha de um lugar. Ela fora trazida. E no momento que aqui chegou, teve todos os elementos que pudessem lembra-la de que era um ser humano arrancados dela, inclusive a família, que foi desmembrada. Por isso, não reconheço o sobrenome que carrego como meu – ele era dos escravocratas que tinham posse sobre meus ascendentes. “Mas vocês usam escravidão como desculpa para tudo!”, eles dirão. É o que falam sempre, independente do assunto. Eles dizem que é algo que aconteceu há muito tempo atrás e que deveríamos deixar pra lá. Primeiro, vamos fingir que a escravidão acabou exatamente naquele 13 de maio de 1888. Então a escravidão durou mais ou menos 358 anos. O Brasil vai estar 358 anos “livre” da escravidão em 2246. Isso mesmo, em 233 anos. Então ao invés de pensar em quanto tempo a escravidão “acabou”, que tal pensar em quanto tempo ela durou e de que maneira se deu a construção da sociedade brasileira?

Ponto de vista ocidental da questão escravocata.

Voltando aos conceitos, raça é um conceito social e sobre ele qualquer negro entende. Não precisa estar na academia para saber que elementos diferenciam uma raça da outra, é preciso apenas procurar um emprego, querer entrar em uma universidade pública, ficar até um pouco mais tarde na rua. Então, não, não queremos causar uma “rixa racial” com este dia. Queremos justamente o contrário. Mostrar que essa distinção já existe e como acabar com ela.

“Mas já vivemos numa democracia racial”. Nem mesmo o mais otimista consegue acreditar quando justamente o dia que visibilizamos a luta racial é justamente o único dentre todos os 365 dias que compõem o ano, que não pode virar feriado ou trará prejuízos financeiros aos herdeiros dos escravocratas que fizeram sua fortuna graças àqueles que persistem em reprimir. Mas não nos calaremos, nem hoje, nem nunca.

A patologização do corpo

Hoje é o Dia Internacional de Ação pela Despatologização Trans, organizado pela STP (Stop Trans Pathologization) que este ano tem como ênfase a despatologização da diversidade de gênero na infância. Neste post pretendo abordar brevemente, em caráter empírico, a normatização dos nossos corpos e de como eles são aceitos na sociedade.

Combate a Patologização da Diversidade de Gênero na Infância

Apesar de nenhum signo ser intrinsecamente associável a um determinado gênero (ou ainda ausência de gênero), muitas vezes acreditamos que algumas características são naturais de algum gênero porque nos é constantemente dito que estas são exclusivas deste gênero. Qual comportamento é associado a qual gênero depende de diversos fatores, entre os quais estão localização geográfica e período da história abordado. Ironicamente um mesmo comportamento pode simultaneamente ser considerado masculino ou feminino em contextos diferentes.

Alguns comportamentos acabam sendo ressignificados ao longo do tempo através da reivindicação de grupos marginalizados, entretanto, na maioria dos casos sem uma leitura crítica pelo resto da sociedade. Apesar de alguma exceções, os limites do gênero são tão rígidos e inflexíveis que qualquer incursão mais ousada fora dos limites impostos são prontamente identificadas, se não para serem combatidas para serem lidas como inovadoras ou audaciosas.

Ao termos nossos gostos e expressões podados por um sistema binário rígido e normatizador temos nosso potencial de desenvolvimento amplamente prejudicado. Nossos gostos e nossas opiniões são constantemente filtrados e avaliados, gerando censura e punição caso destoantes da hegemonia estabelecida. Nossos corpos (e, por extensão, todos os nossos gostos, nossas vontades e nossas formas de expressão) são patologizados dentro de um ideal de corpo correto (masculino ou feminino) dentro de uma ótica cissexista.

A patologização das identidades trans* nos diz quais corpos são expressões legítimas para um determinado gênero e oprime todos os corpos que não se enquadrem deste padrão. Esta patologização não apenas discrimina algumas identidades, mas sim todos os corpos, ao limitar todas as esferas da nossa vida dentro de uma separação arbitrária coercivamente binária (e muitas vezes lida como antagônica). O gênero deixa de ser uma expressão individual e torna-se uma ferramenta de controle da sociedade sobre todos os corpos. A patologização das identidades trans* é a patologização do gênero, do corpo.

A despatologização é um instrumento imprescindível e urgente para a humanidade das pessoas trans*, sejam elas binárias ou não-binárias. Entretanto é também imprescindível que isso não seja feito por interesses egoístas das pessoas cis em ter seus corpos despatologizados, é necessário que compreendamos que enquanto uma pessoa não for livre ninguém o será. Que transformemos nossos corpos em campos de guerra e resistamos sempre.

Fuck gender!

Fuck gender!

Carta Aberta Transfeminismo Fazendo Gênero

Transfeminismo

Aviso: Este documento foi feito após no encerramento do ST do Transfeminismo ocorrido no Seminário Internacional Fazendo Gênero 10, em virtude de algumas questões que surgiram durante o referido Seminário. Solicitou-se que tal carta fosse lida no evento de encerramento do Seminário, o que por motivos desconhecidos não ocorreu.

Nós, participantes do pioneiro Simpósio Temático “Feminismo Transgênero e Transfeminismo”, realizado durante o Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 – Desafios Atuais dos Feminismos (FG10), como coletivo auto-organizado e orientado pela agenda transfeminista, discutimos e aprovamos a presente Carta Aberta “Transfeminismo Fazendo Gênero” à comunidade universitária, participantes do evento e, em especial, à organização do Seminário, composta pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas e pelo Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina e pelo Centro de Ciências Humanas e da Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina.

Reconhecemos a importância da inclusão da teoria e da…

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Sexismo na ciência

Ou porque mulheres precisam de um dia e homens não.

She didn’t write it.
She wrote it, but she shouldn’t have.
She wrote it, but look what she wrote about.
She wrote it, but she wrote only one of it.
She wrote it, but she isn’t really an artist, and it isn’t really art.
She wrote it, but she had help.
She wrote it, but she’s an anomaly.
She wrote it, BUT . . .

[Não foi ela quem escreveu. Ela escreveu, mas não deveria. Ela escreveu, mas olha o que ela escreveu depois. Ela escreveu, mas só escreveu um. Ela escreveu, mas ela não é uma artista de verdade e isso sequer é arte. Ela escreveu, mas precisou de ajuda. Ela escreveu, mas é uma anomalia. Ela ATÉ escreveu, mas…]
(Joanna Russ)

“Meu professor sempre me disse que se eu me esforçar eu poderei ser a próxima Marie Curie.” “Você sabe, eu gostaria que me superassem.” “Marie Curie zumbi!” “Não é que eu não mereça. Esses dois Nobel não são decoração. Mas eu sou um exemplo lamentável se as garotas me veem o tempo todo como a única cientista mulher. Lise Meitner percebeu que a fissão nuclear estava acontecendo enquanto o seu colega Otto estava olhando atônito para os dados, e ainda provou que Enrico Fermi estava errado no caminho. Enrico e Otto, ambos ganharam prêmios Nobel. Lise ganhou um prêmio do National Women’s Press Club. Finalmente nomearam um elemento em sua homenagem, mas não antes de passarem 60 anos. Emmy Noether lutou para terminar a sua educação na era vitoriana, aprendeu matemática como aluna ouvinte, e, depois de finalmente conseguir um doutorado foi permitida lecionar apenas como professora voluntária (em geral sob o nome de colegas homens).” “Ela era tão boa quanto eles?” “Ela revolucionou a álgebra abstrata, preencheu vazios na teoria da relatividade, e descobriu o que alguns chamam de o resultado mais profundo e bonito da física teórica.” “Oh.” “Mas você não se torna importante querendo ser importante. Você se torna importante tentando fazer algo, e então fazendo isso tão bem que você se torna importante no caminho. Então não tente ser a próxima eu, Noether ou Meitner. Apenas lembre que se você quer fazer essas coisas você não está sozinha.” “Obrigada.” “Aliás, evite o rádio. Acontece que ele pode te matar.” “Tentarei.”

O efeito Mateus é a atribuição imerecida de mérito para cientistas já proeminentes. A versão deste efeito que considera gênero é conhecida como efeito Matilda, e aborda a falta de reconhecimento de pesquisas realizadas por mulheres, sendo diversas vezes atribuídas a cientistas homens (LINCOLN et al, 2012, p. 308, tradução nossa; ROSSITER, 1993, p. 337, tradução nossa; VAN DEN BRINK; BENSCHOP, 2012, p. 519, tradução nossa). Os esforços femininos continuam sendo avaliados como como menos importantes que os realizados por homens, apesar da queda na descriminação evidente. Entretanto não apenas os homens superestimam o trabalho masculino, mesmo por mulheres tão competentes quanto estes (BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa; LINCOLN et al, 2012, p. 308, tradução nossa).

Valian sugere que isto ocorre porque queremos muito acreditar na justiça do mundo. As mulheres que alcançam sucesso podem desconsiderar as praticas sexistas dentro da ciência porque a ausência de êxito de outras mulheres faria com o seu próprio sucesso pareça maior. Outra explicação é a “negação da desvantagem pessoal”, ou seja, mulheres comparam o seu desempenho com o de outras mulheres e não o de outros homens. Parece que se deseja tanto acreditar na neutralidade do mérito que enquanto uma pessoa não tiver sua carreira bastante prejudicada ela continuará se recusando a aceitar a injustiça. Se a intolerância não for abordada as mulheres continuarão a avançar muito lentamente(BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa).

Uma evidência clara de que a pesquisa acadêmica não é imune ao efeito Matilda ocorreu em 2001 quando a revista Behavioral Ecology implementou o processo de revisão de manuscrito duplo-cego. As identidades de autoria e de revisão eram, agora, ambas anônimas, ocasionando o aumento de 7,9% na aceitação de artigos com mulheres como primeira autora (LINCOLN et al, 2012, p. 308, tradução nossa). Para mulheres talentosas a academia costuma não ser muito uma meritocracia(BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa).

Quando se avalia excelência temos um padrão duplo em relação a gênero, uma mulher que não alcance o padrão em um quesito que seja será rejeitada, enquanto um homem que não alcance este mesmo padrão tem uma oportunidade de se aperfeiçoar. Reluta-se em deixar a ideologia da excelência, porque isso poderia afetar os padrões de qualidade utilizados, apesar de que isso já é feito (conscientemente ou não) com os homens. Esta diferença de tratamento acaba se perdendo na retórica da meritocracia e nos comentários relativamente despercebidos dos homens. Em função da ética científica do mérito é negada a influência do gênero na prática acadêmica (VAN DEN BRINK; BENSCHOP, 2012, p. 519, tradução nossa).

Premiações se relacionam com publicações como marcos de sucesso profissional e são decisivos na hora de indicações e promoções. Apesar do aumento no número de mulheres com doutorado e sua importância crescente na força de trabalho científica elas continuam sub-representadas em premiações por sua pesquisa, esta desvantagem já começa desde as nomeações. Por serem menos validadas como pesquisadoras competentes tendem a não se promover ou pedir nomeações de outrem. Os critérios dos prêmios tendem a evocar esteriótipos masculinos como “líderes” ou pessoas que “assumem riscos”. As cartas de recomendação para indicadas costumam ser mais curtas, mencionam o gênero, usam esteriótipos femininos e incluem mais linguagem negativa para levantar dúvida quanto à candidata (LINCOLN et al, 2012, p. 309, tradução nossa).

Apesar de o número de mulheres premiadas nas duas décadas ter aumentado, uma análise mais cuidadosa mostra que a proporção de mulheres que receberam prêmios por pesquisas acadêmicas, de fato, diminuiu. Além disso, as chances de um homem ser contemplado com um prêmio de pesquisa independe da proporção entre os gêneros dos candidatos indicados. Representação feminina nos comitês avaliativo, especialmente como presidentas, parece moderar a disparidade (LINCOLN et al, 2012, p. 315, tradução nossa).

Historicamente, as alegações de que os grupos em desvantagem são inatamente inferiores costumam ser frutos de ciência ruim e intolerância. E considerar que mulheres são menos aptas que homens, sem qualquer evidência relevante, é culpabilização da vítima (BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa). Muitas mulheres têm sua carreira freadas pelo preconceito que sofrem. Muitas acabam “decidindo” sair da ciência ou engenharia por serem constantemente bombardeadas sobre sua suposta incapacidade, afetando sua auto-estima e reduzindo suas ambições. Uma das formas que parece mais promissoras de ajudar as mulheres cientistas é confiar nos trabalhos delas e gerar expectativa positiva. Se não respeitarmos as habilidades das mulheres elas não poderão aprender, avançar, liderar ou participar efetivamente da sociedade de forma plena (BARRES, 2006, p. 135, tradução nossa).

Chamar atenção a este comportamento que já ocorre há séculos talvez ajude as próximas gerações a escrever uma história mais igualitária e compreensiva e uma sociologia da ciência que chama atenção para cada vez mais novas “Matildas”, ao invés de as deixar para trás (ROSSITER, 1993, p. 337, tradução nossa).

BARRES, Ben A.. Does gender matter? Nature, [s. L.], v. 442, p.133-136, 13 jul. 2006. Semanal.

LINCOLN, Anne E. et al. The Matilda Effect in science: Awards and prizes in the US, 1990s and 2000s. Social Studies Of Science, [s. L.], v. 42, n. 2, p.307-320, abr. 2012.

ROSSITER, Margaret W.. The Matthew Matilda Effect in Science. Social Studies Of Science, [s. L.], v. 23, n. 2, p.325-341, maio 1993.

VAN DEN BRINK, Marieke; BENSCHOP, Yvonne. Gender practices in the construction of academic excellence: Sheep with five legs. Organization, [s. L.], v. 19, n. 4, p.507-524, jul. 2012.

Eu matei Jamey Rodemeyer

Você talvez nunca tenha ouvido falar em Jamey Rodemeyer, tudo bem, eu só vim a conhecer a história há pouco menos de um ano. A história pode ser lida neste post da Época. Jamey cometeu suicídio dia 18 de setembro de 2011, aos 14 anos.

Eu mato Rodemeyer todos os dias ao ser mais tolerante com homofobia e apagamento das identidades bi/pansexuais do que deveria. Eu mato Rodemeyer todos os dias ao não me assumir homossexual publicamente em todas as esferas da minha vida. Eu mato Rodemeyer todos os dias ao me dar ao luxo de me preservar, ao invés de discutir, contra-argumentar, reforçar meus argumentos fracos e insistir em trazer a mudança que eu tanto desejo.

A morte de um adolescente jovem e saudável igual Jamey nunca poderia ser considerada sem responsáveis. Ao permitirmos nos isentar de culpa em um episódio em que uma pessoa em estado vulnerável comete suicídio estamos tirando toda a humanidade de nossas vidas. Ao aceitarmos que assim é “como as coisas são” estamos negando a nossa parte inalienável de tentar tornar o mundo o lugar onde queremos viver. Acreditar não ter matado Jamey Rodemeyer é acreditar que estamos isentxs de responder pelas consequências de nossos atos, é não saber medir o poder dos próprios atos.

Jamey Rodemeyer foi obviamente morto por cada mensagem destrutiva deixada em seu blog. Parabéns se você não mandou nenhuma destas, mas a culpa ainda é sua por negligência e omissão. A culpa é de todxs nós, por termos permitido que a rede tenha se tornado esta terra de ninguém, onde consideramos aceitável a forma mais brutal de violência e agimos como se isto fosse natural. Como diria Desmond Tutu, a cada vez que nos mantemos neutros em uma situação de opressão estamos ao lado do opressor. E, portanto, toda vez que eu me calo estou matando novamente Jamey Rodemeyer.

A morte de Jamey é um alerta para nós. É um alerta do poder do nosso discurso omisso. É um alerta de como nossas ações demandam responsabilidades. É um alerta de como não podemos tolerar a intolerância se quisermos termos um pouco de paz de espírito.

Desculpa, Jamey. Eu teria te amado caso tivesse te conhecido em vida. Porém faço deste blog uma homenagem póstuma a sua dor, um sussurro em meio ao grito gigantesco do bullying homofóbico, e o faço por você.

(Ontem, dia 17 de maio, foi o Dia Internacional Contra a Homofobia. Em 17 de maio de 1990 a homossexualidade foi retirada da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS))