Sexismo na ciência

Ou porque mulheres precisam de um dia e homens não.

She didn’t write it.
She wrote it, but she shouldn’t have.
She wrote it, but look what she wrote about.
She wrote it, but she wrote only one of it.
She wrote it, but she isn’t really an artist, and it isn’t really art.
She wrote it, but she had help.
She wrote it, but she’s an anomaly.
She wrote it, BUT . . .

[Não foi ela quem escreveu. Ela escreveu, mas não deveria. Ela escreveu, mas olha o que ela escreveu depois. Ela escreveu, mas só escreveu um. Ela escreveu, mas ela não é uma artista de verdade e isso sequer é arte. Ela escreveu, mas precisou de ajuda. Ela escreveu, mas é uma anomalia. Ela ATÉ escreveu, mas…]
(Joanna Russ)

“Meu professor sempre me disse que se eu me esforçar eu poderei ser a próxima Marie Curie.” “Você sabe, eu gostaria que me superassem.” “Marie Curie zumbi!” “Não é que eu não mereça. Esses dois Nobel não são decoração. Mas eu sou um exemplo lamentável se as garotas me veem o tempo todo como a única cientista mulher. Lise Meitner percebeu que a fissão nuclear estava acontecendo enquanto o seu colega Otto estava olhando atônito para os dados, e ainda provou que Enrico Fermi estava errado no caminho. Enrico e Otto, ambos ganharam prêmios Nobel. Lise ganhou um prêmio do National Women’s Press Club. Finalmente nomearam um elemento em sua homenagem, mas não antes de passarem 60 anos. Emmy Noether lutou para terminar a sua educação na era vitoriana, aprendeu matemática como aluna ouvinte, e, depois de finalmente conseguir um doutorado foi permitida lecionar apenas como professora voluntária (em geral sob o nome de colegas homens).” “Ela era tão boa quanto eles?” “Ela revolucionou a álgebra abstrata, preencheu vazios na teoria da relatividade, e descobriu o que alguns chamam de o resultado mais profundo e bonito da física teórica.” “Oh.” “Mas você não se torna importante querendo ser importante. Você se torna importante tentando fazer algo, e então fazendo isso tão bem que você se torna importante no caminho. Então não tente ser a próxima eu, Noether ou Meitner. Apenas lembre que se você quer fazer essas coisas você não está sozinha.” “Obrigada.” “Aliás, evite o rádio. Acontece que ele pode te matar.” “Tentarei.”

O efeito Mateus é a atribuição imerecida de mérito para cientistas já proeminentes. A versão deste efeito que considera gênero é conhecida como efeito Matilda, e aborda a falta de reconhecimento de pesquisas realizadas por mulheres, sendo diversas vezes atribuídas a cientistas homens (LINCOLN et al, 2012, p. 308, tradução nossa; ROSSITER, 1993, p. 337, tradução nossa; VAN DEN BRINK; BENSCHOP, 2012, p. 519, tradução nossa). Os esforços femininos continuam sendo avaliados como como menos importantes que os realizados por homens, apesar da queda na descriminação evidente. Entretanto não apenas os homens superestimam o trabalho masculino, mesmo por mulheres tão competentes quanto estes (BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa; LINCOLN et al, 2012, p. 308, tradução nossa).

Valian sugere que isto ocorre porque queremos muito acreditar na justiça do mundo. As mulheres que alcançam sucesso podem desconsiderar as praticas sexistas dentro da ciência porque a ausência de êxito de outras mulheres faria com o seu próprio sucesso pareça maior. Outra explicação é a “negação da desvantagem pessoal”, ou seja, mulheres comparam o seu desempenho com o de outras mulheres e não o de outros homens. Parece que se deseja tanto acreditar na neutralidade do mérito que enquanto uma pessoa não tiver sua carreira bastante prejudicada ela continuará se recusando a aceitar a injustiça. Se a intolerância não for abordada as mulheres continuarão a avançar muito lentamente(BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa).

Uma evidência clara de que a pesquisa acadêmica não é imune ao efeito Matilda ocorreu em 2001 quando a revista Behavioral Ecology implementou o processo de revisão de manuscrito duplo-cego. As identidades de autoria e de revisão eram, agora, ambas anônimas, ocasionando o aumento de 7,9% na aceitação de artigos com mulheres como primeira autora (LINCOLN et al, 2012, p. 308, tradução nossa). Para mulheres talentosas a academia costuma não ser muito uma meritocracia(BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa).

Quando se avalia excelência temos um padrão duplo em relação a gênero, uma mulher que não alcance o padrão em um quesito que seja será rejeitada, enquanto um homem que não alcance este mesmo padrão tem uma oportunidade de se aperfeiçoar. Reluta-se em deixar a ideologia da excelência, porque isso poderia afetar os padrões de qualidade utilizados, apesar de que isso já é feito (conscientemente ou não) com os homens. Esta diferença de tratamento acaba se perdendo na retórica da meritocracia e nos comentários relativamente despercebidos dos homens. Em função da ética científica do mérito é negada a influência do gênero na prática acadêmica (VAN DEN BRINK; BENSCHOP, 2012, p. 519, tradução nossa).

Premiações se relacionam com publicações como marcos de sucesso profissional e são decisivos na hora de indicações e promoções. Apesar do aumento no número de mulheres com doutorado e sua importância crescente na força de trabalho científica elas continuam sub-representadas em premiações por sua pesquisa, esta desvantagem já começa desde as nomeações. Por serem menos validadas como pesquisadoras competentes tendem a não se promover ou pedir nomeações de outrem. Os critérios dos prêmios tendem a evocar esteriótipos masculinos como “líderes” ou pessoas que “assumem riscos”. As cartas de recomendação para indicadas costumam ser mais curtas, mencionam o gênero, usam esteriótipos femininos e incluem mais linguagem negativa para levantar dúvida quanto à candidata (LINCOLN et al, 2012, p. 309, tradução nossa).

Apesar de o número de mulheres premiadas nas duas décadas ter aumentado, uma análise mais cuidadosa mostra que a proporção de mulheres que receberam prêmios por pesquisas acadêmicas, de fato, diminuiu. Além disso, as chances de um homem ser contemplado com um prêmio de pesquisa independe da proporção entre os gêneros dos candidatos indicados. Representação feminina nos comitês avaliativo, especialmente como presidentas, parece moderar a disparidade (LINCOLN et al, 2012, p. 315, tradução nossa).

Historicamente, as alegações de que os grupos em desvantagem são inatamente inferiores costumam ser frutos de ciência ruim e intolerância. E considerar que mulheres são menos aptas que homens, sem qualquer evidência relevante, é culpabilização da vítima (BARRES, 2006, p. 134, tradução nossa). Muitas mulheres têm sua carreira freadas pelo preconceito que sofrem. Muitas acabam “decidindo” sair da ciência ou engenharia por serem constantemente bombardeadas sobre sua suposta incapacidade, afetando sua auto-estima e reduzindo suas ambições. Uma das formas que parece mais promissoras de ajudar as mulheres cientistas é confiar nos trabalhos delas e gerar expectativa positiva. Se não respeitarmos as habilidades das mulheres elas não poderão aprender, avançar, liderar ou participar efetivamente da sociedade de forma plena (BARRES, 2006, p. 135, tradução nossa).

Chamar atenção a este comportamento que já ocorre há séculos talvez ajude as próximas gerações a escrever uma história mais igualitária e compreensiva e uma sociologia da ciência que chama atenção para cada vez mais novas “Matildas”, ao invés de as deixar para trás (ROSSITER, 1993, p. 337, tradução nossa).

BARRES, Ben A.. Does gender matter? Nature, [s. L.], v. 442, p.133-136, 13 jul. 2006. Semanal.

LINCOLN, Anne E. et al. The Matilda Effect in science: Awards and prizes in the US, 1990s and 2000s. Social Studies Of Science, [s. L.], v. 42, n. 2, p.307-320, abr. 2012.

ROSSITER, Margaret W.. The Matthew Matilda Effect in Science. Social Studies Of Science, [s. L.], v. 23, n. 2, p.325-341, maio 1993.

VAN DEN BRINK, Marieke; BENSCHOP, Yvonne. Gender practices in the construction of academic excellence: Sheep with five legs. Organization, [s. L.], v. 19, n. 4, p.507-524, jul. 2012.

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