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A construção social do sexo

Traduzido de http://transdykeprivilege.tumblr.com/post/71341524775/sex-is-biological-go-open-a-biology

Anônimo perguntou:

sexo é biológico??????????????? vá abrir um livro de biologia?????????????????? não é uma construção social ‘cê ‘tá pensando em gênero????????????

eu espero que a superabundância de interrogações seja um indicativo de que você sabe em algum nível do tamanho da besteira que você disse.

[alerta de conteúdo: discussão sobre genitália e órgãos internos]

primeiro de tudo, quando você diz “sexo” eu presumo que você está falando no que é chamado de “sexo biológico”, “dimorfismo sexual”, ou “diferenças sexuais.” especificamente o que você está tentando dizer ou implicar é a existência material de duas categorias de corpos: masculinos e femininos. vou supor que você está se referindo a cromossomos já que essa é considerada a base ‘mais fundamental’ do sexo por pessoas transmisóginas desde pelo menos 1979.

um cromossomo sexual é uma mancha com uma aparência específica que aparece em um cariótipo, ou um teste envolvendo o tingimento e a visualização microscópica de cromossomos. cromossomos são pequenas manchas de gosma dobrada que se bem desenrolada vira uma cadeia de DNA—que é uma cadeia de pares de bases nitrogenadas (guanina e citosina, adenina e timina). o que você vai encontrar lá são histonas em que a cromatina (material genético um pouco estendido) está enrolada. adicionalmente, você vai achar metilação, e toda outra forma de pequenos químicos e partículas porque adivinha só? o DNA não é um sistema de codificação linear. o DNA codifica em trechos—geralmente trios que são lidos como determinados aminoácidos, que então se juntam e formam as peças pra formar proteínas. o problema de codificar em trios é que pode se tornar super complexo. então

AGGCTTATTAGGCTCTA

pode, por exemplo, ser codificado ao mesmo tempo como

AGG CTT ATT AGG CTC ta
e
a GGC TTA TTA GGC TCT a
e
ag GCT TAT TAG GCT CTA

só pra citar um caso. por isso existem sinais indicando onde a codificação deve começar, mas esses sinais podem se mover, ou ligados e desligados. essa é uma das funções da metilação—ela pode ligar e desligar os indicativos de onde começar a codificação da cadeia. a metilação de qualquer parte de um filamento de DNA pode ser ativada por todo tipo de coisa. um estudo encontrou relação as taxas de diabetes e níveis de estresse nas avós das pessoas com diabetes—ou seja, o estresse se relacionava com diabetes duas gerações depois. só pra dar uma ideia do grau de complexidade da codificação.

e as complexidades continuam a cada nível. As proteínas que são formadas por sequências de DNA podem se juntar de formas diferentes dependendo da composição química do meio. o DNA em si—um objeto tridimensional no mesmo meio—pode interagir fisicamente com as proteínas ou consigo mesmo. mas também lembre-se de que estamos falando de um gosma química sujeita a condições ambientais, que incluem todas as formas de mutações. algumas vezes a coisa desanda (não vou falar que ‘dá errado’ porque isso presume que as mutações são ‘ruins’ o que é besteira, elas são necessárias para a adaptabilidade genética—e também porque isso significa aplicar noções antropocêntricas de funcionalidade, de comportamento ‘certo’ ou ‘errado’, da gosma) e AGG CTT ATT perde uma letra e vira AGC TTA tt (o que é conhecido como mutação por mudança da matriz de leitura—ainda existem outras coisas como mutações pontuais). além, as coisas ficam estranhas quando o DNA está sendo replicado—não é um processo perfeito de leitura, é um monte de reações químicas flutuando em gosma. e acontece milhões de vezes, então a probabilidade de que as coisas deem errado de diversas formas é alta.

mas até em níveis além da codificação de DNA, para os cromossomos, as coisas são confusas. porque os cromossomos se juntam a partir de uma distribuição mais livre da gosma quando a célula está se dividindo, e as coisas podem dar errado nesse processo—ficar no lugar errado, ficar embaralhado no outro lado, etc. nesse sentido, existe um processo chamado crossing over que ocorre na replicação da célula durante a metáfase (enquanto os cromossomos estão emparelhados no centro da célula antes da divisão do núcleo) em que os cromossomos trocam pedaços entre si sem nenhum motivo em especial. e também é bem aleatório onde acontece, o que quer dizer que códigos importantes podem ser cortados ao meio, ou novos códigos podem ser criados.

tudo leva ao fato de que é incrivelmente improvável esperar algum tipo de distribuição meio a meio significativa entre “cromossomos XX” e “cromossomos XY”. o que serve pra realidade, porque na realidade nós observamos toda forma de variação, exatamente como seria de se esperar. agora, que acontece quando tem variação? na maior parte, as coisas só acontecem. são só células. elas fazem a coisa delas, criam pequenos órgãos, replicam pra que os órgãos cresçam e fiquem mais específicos, etc. então talvez agora você comece a ver por que esperar que elas se comportem de forma organizada em dois padrões é completamente incorreto? ou por que é que no mundo real observamos uma variedade de corpos humanos além de só Barbies XX e Kens XY? mas mesmo olhando além disso, o que está de fato acontecendo com o famoso sistema reprodutor? Bom, algumas dessas células têm a habilidade de gerar gametas—meio como se fossem meias células— que podem se unir a outros gametas e virar um outro aglomerado de órgãos. isso é o que a fertilização e a gravidez são. é tudo que ‘tá envolvido. genericamente falando, um tipo de gametas aparecerá em corpos de pessoas nas quais as células tendem a ter a gosma que aparece de uma certa forma no cariótipo, enquanto que o outro tipo de gametas aparecerá em corpos de pessoas em que as células tendem a ter a gosma que aparece de uma forma diferente no cariótipo, com um monte de variações e possibilidade das coisas serem interrompidas. então por que é que isso sequer importa pra nós? por que é que eu estou aqui às 4 da manhã da noite de natal com uma caixa de cheezits e uma taça de vinho respondendo porcaria que gente anônima manda sobre isso? porque a partir dessa tendência genérica de corpos as pessoas construíram a noção de sexo.

o patriarcado, em sua base, é um sistema de exploração econômica que consiste em um grupo de pessoas recebendo trabalho que tem valor, e outro grupo de pessoas recebendo trabalho que não tem valor. isso foi mapeado em dois grupos gerais de pessoas, aquelas que tendem a ter um tipo de gameta e aquelas que tendem a ter outro tipo, e as pessoas que vieram com a ideia de que o seu trabalho tinha valor eram ‘masculinos’, ‘homens’, etc, enquanto aquelas que foram forçadas a ser objeto de exploração e violência eram ‘femininas’, ‘mulheres’, etc. como parte de valorizar o trabalho masculino, os homens construíram uma explicação para a iniquidade que eles alegavam derivar da natureza da realidade física. especificamente a noção das ‘diferenças sexuais’, ou a tendência das pessoas de produzirem diferentes variedades de gametas. para melhor justificar e valorizar a exploração das mulheres, os homens construíram toda a noção de indivíduo ao redor disso, um ideal que para eles aconteceu de estar contido em um órgão que a maioria deles usava para distribuir gametas. e para justificar a violência que eles estavam fazendo, argumentaram que existiam naturalmente apenas duas categorias de pessoas, agrupadas com base no trabalho realizado/posição durante o sexo/produção de gameta/etc (todas essas coisas foram unificadas e receberam ênfases diferentes ao longo do tempo, ajudando a mistificar a falsidade da distinção).

a noção de que certos tipos de órgãos correlacionam certos tipos de comportamento, certos padrões econômicos, etc, é um produto de um sistema social de opressão. NÃO é fundada em qualquer tipo de ‘fato biológico’ porque antes de qualquer coisa ‘fato biológico’ não existe. um órgão não é um significante exceto no contexto de uma ‘biologia’ socialmente construída que é especificamente construída como uma justificativa do patriarcado. quase literalmente. eu trabalhei com biologistas (sim, anon, acontece de eu já ter de fato aberto um livro de biologia algumas vezes na minha vida) e uma coisa que eu posso dizer definitivamente é que, assim como a maioria dos cientistas, não pensam profundamente em como os tipos de questão que levantam e as formas de interpretar os dados são estruturados pelo mundo. melhor das hipóteses fizeram um ou outro curso obrigatório de bioética na graduação. então quando tentam interpretar dados matemáticos estão fazendo de uma forma que já presume a questão real como respondida. encontram dimorfismo sexual não porque está nos resultados dos dados, mas porque estava pressuposto na hora que levantaram os problemas—se você perguntar ‘qual sexo é melhor em matemática?’ você nunca vai encontrar evidência de que ‘sexo’ é uma construção sem sentido. isso é o que muito da ‘verdade científica’ é, de fato—as coisas que já eram aceitas quando as pessoas fizeram perguntas mais complexas, e que só foram descartadas, se é que foram, quando todas as respostas a todas as perguntas complicadas continuamente revelaram algo que enfraqueceu o modelo anterior (que, por acaso, está acontecendo agora com a noção de sexo—isso mesmo, até cientistas patriarcais estão chegando à consciência da tremenda besteira que isso é, embora fazendo o maior desvio possível e ainda assim causando o máximo de dano que puderem enquanto isso).

mas o que podemos ver disso tudo é que gênero precede sexo. gênero é uma forma de organizar a esfera social, e dados biológicos não são dessa forma. gênero, em outras palavras, é a categoria fundamental de sexo do patriarcado. agora, pode-se dizer que vivemos em um mundo social, que nossas subjetividades são socialmente construídas, e assim para nós um órgão é um significante. claro que isso é verdade, mas é preciso que se reconheça sua natureza socialmente construída para perceber que antes de qualquer coisa não estamos analisando aqui um sistema rígido. não é simplesmente um questão que para a realidade biológica um certo cromossomo ou um certo órgão conduz a um certo lugar dentro do patriarcado, e da mesma forma não é apenas uma questão de dizer na construção social um certo cromossomo ou um certo órgão conduz a um certo lugar dentro do patriarcado. se estivermos cientes da complexidade envolvida em constituir socialmente o que basicamente é um punhado de gosma (células) que gera ou não mais gosma (bebês, pessoas, etc) como pertencimento a uma categoria binária e um tanto rígida, pode-se mais facilmente perceber como a construção social pode escorregar algumas vezes, e resultar em uma pessoa que, por exemplo, tem um tipo de órgão, e ainda assim teve sua identidade socialmente construída dentro da categoria de um tipo “diferente” de órgão (dentro das noções patriarcais que ‘diferença sexual’). de fato, só se pode falhar em reconhecer isso se partido do lugar dissimulado de assumir a priori que a pessoa em questão está enganada ou enganado, ao invés de relatando a realidade tão bem quanto a língua permite. e o uso de inversões dessa língua para relatar realidades o melhor possível é um esforço de redirecionar e ganhar controle sobre o biopoder assim como ele tem sido usado contra nós. não é nem mais e nem menos legítimo que a língua do patriarcado, exceto se a pessoa crê que que seja legítimo apoiar o patriarcado (argumento que sexo é ‘real’) ou rompendo com ele.

o que, então, é sexo? é a forma como as pessoas falam sobre punhados de gosma, e especificamente a forma como esses punhados são categorizados em dois tipo, em claro desafio à realidade, com o propósito expresso de perpetuar o patriarcado.

então, sim, sexo é biológico, no sentido que os termos do sexo são codificados no discurso de ‘biologia’, que é em si socialmente construída pelo patriarcado.

sexo é uma construção social, essa é a porra da minha palavra final nessa bosta.

NÃO me mande essa bosta ignorante de novo.

Desenhando a falsa simetria

Se você esteve online nas últimas duas semanas você deve ter ouvido falar no Lulu. É um aplicativo para Android e iOS em que mulheres podem avaliar parceiros sexuais antigos e atribuir notas à sua performance, além de possuir algumas tags pré-definidas.

Muito se fala nas tags do Lulu, em especial a polêmica “vale menos que um pão na chapa”, mas muitas das tags (apesar de serem agregadas entre positivas e negativas) são de caráter contextual. Alguns exemplos de tags são: curte Romero Britto, usa Raider, acende um cigarro no outro, 4 e 20, três pernas, fica na dele, mais pop que o papa, cavalheiro e ursinho. Acredito que nenhuma dessas informações é inerentemente ruim ou boa, mas que pode ter seu caráter variável de acordo com a situação.

A criadora do aplicativo diz que a sua intenção é virar a mesa nas conversas de bar. Muito se foi discutido a respeito, desde questões de privacidade no Facebook até diferentes formas de abordagem ao serviço e como este estaria inserido dentro da lógica patriarcal.

A discussão tomou ainda mais fôlego, especialmente nos meios feministas, com o surgimento do aplicativo que pretendia ser o seu equivalente simétrico: Tubby. A grande questão se concentra em uma falsa simetria entre mulheres avaliando homens e homens avaliando mulheres.

Não entendeu? Eu explico. O Lulu, apesar de nunca declarar, se pretende ser universal. O posicionamento é tão ingênuo que chega a soar infantil. Para a desenvolvedora todas as pessoas no Facebook são ou homens ou mulheres e são heterossexuais (de fato, as pessoas poderiam ser bissexuais/pansexuais sem grande perda de usabilidade). O aplicativo ignora pessoas homossexuais, não-binárias, assexuais e até mesmo crianças e idosas. É um erro grande e grave, mas é um erro extremamente ingênuo. Em contrapartida o Tubby é um aplicativo de caráter universal, mesmo que seus desenvolvedores, cegos por terem seu privilégio masculino questionado, não percebam.

Vivemos em uma sociedade profundamente enraizada no binário de gênero (ou seja, que acredita que só existem homens e mulheres) e que acredita que existem papéis claramente separados entre esses dois gêneros (mesmo que, contraditoriamente, a linha divisora se apresente em lugares diferentes de acordo com o contexto). Então desde que nascemos nos é ensinado que papel devemos exercer de acordo com o gênero que nos é atribuído no nascimento. Isso quer dizer meninas de rosa, meninos de azul.

Mais profundo que isso, quer dizer que a mulher tem sua sexualidade podada desde os primeiros anos de vida, é ensinada a não ser estuprada, é ensinada a cozinhar e cuidar da casa, é ensinada a se maquiar e se embelezar para agradar ao olhar masculino. Desde muito novas as mulheres são sexualizadas e precisam se acostumar a viver com o fantasma do assédio as perseguindo. Desde muito novas aprendem que se foram estupradas ou se sofrerem algum tipo de violência a culpa é dela porque estava de roupa curta, porque bebeu, porque resolveu sair sozinha a noite…

A sexualidade da mulher é sempre tão severamente policiada e punida que existem diversos casos de crimes contra mulheres que resolvem deixar antigos parceiros, o feminicídio disfarçado de crime passional. Outra forma de atacar a sexualidade da mulher é o que chamamos de “revenge porn”, material pornográfico divulgado por um (ex-)parceiro como forma de atacar a credibilidade feminina. É sobre esse pressuposto que se apoia a declaração de que lésbicas não gostam de homens porque “nunca foram bem comidas”, podendo culminar em casos de “estupro corretivo”. É porque a sexualidade da mulher é domínio público (exceto dela mesma) que caso ela sofra qualquer agressão a culpa é somente dela, que estava ciente de estar expondo a sua sexualidade e não fez nada para evitar isso (até porque tudo que ela fizer apenas reforça a própria sexualidade, nunca atenua).

Vivemos numa sociedade em que a mulher vale menos se tem sua vida sexual exposta, em que diversos níveis de xingamento são baseados nessa conduta (inclusive, o pior xingamento para ofender um homem é direcionado à sua mãe). Não existe uma postura inócua ou neutra em expor a sexualidade de uma mulher, porque muito da imagem que ela passa depende disso. A sexualidade e a vida sexual vão ser invocadas em diversas situações, mesmo que isso não influencie o tema em questão. Na hora de procurar emprego, na hora de ser avaliada pelo chefe, na hora de andar na rua, na hora de conhecer novas pessoas, na hora de ficar quieto no seu canto.

O Lulu é uma brincadeira inocente e ingênua, ainda que inconsequente. É uma forma de mulheres se unirem e trocarem opiniões entre si de quem elas gostaram de ficar e indicar para as conhecidas as maiores qualidades e os maiores defeitos dos rapazes. Conceito que já foi explorado de outras formas em outros meios. Entretanto a sexualidade feminina precisa e será sempre julgada. O Lulu falha por não saber onde se posiciona dentro da sociedade.

Numa sociedade machista e misógina como a nossa uma mulher só merece respeito se for casta, se não gostar de sexo e de preferência se só fizer para agradar aos homens. A sexualidade da mulher é estranhamente controlada por parâmetros ambíguos: espera-se que a mulher seja uma dama na sala e uma puta na cama.

Os desenvolvedores do Tubby sabem disso e deixaram explícito no beta do aplicativo. O critério de inteligência diminuía a nota da mulher, assim como desempenho e iniciativa. O critério de disponibilidade aumentava a nota. Ou seja, quanto mais disponível uma mulher estivesse para servir sexualmente “o seu homem”, melhor a nota recebida. Os desenvolvedores do Tubby diziam que as mulheres que se descadastraram do seu site “arregaram”, como forma de ofender a mulher uma última vez enquanto ainda havia chance.

Recentemente o Tubby foi proibido pela justiça e os desenvolvedores do aplicativo lançaram um vídeo “explicando” que tudo não passava de uma brincadeira, que o aplicativo “falso” servia para denunciar o sexismo e misoginia gritantes na nossa sociedade e nos alertar para as questões de segurança. Porque essa é a mentalidade brasileira, qualquer coisa pode (e até em algum grau deve) ser feita se for em nome do humor, se for engraçado. Acredita-se que toda e qualquer coisa é aceitável se for em nome de agradar o status quo e a sociedade hegemônica. E é por isso que, criadores cientes disso ou não disso, o Tubby é um aplicativo de caráter universal.

P.S.: Em relação à questão de privacidade que foi amplamente discutida devido ao surgimento destes aplicativos: eu não me importo em ter meus dados coletados e utilizados por empresas para segmentação de mercado. O meu maior problema é que as empresas vão descobrir que gosto de azul e vão me vender coisas azuis, mas não vão descobrir que eu sou pró-transfeminismo e contratar pessoas trans*, não vão descobrir que eu sou contra o binário de gênero e produzir brinquedos sem marcadores de gênero e não vão se aprofundar em nenhuma destas questões sociais. Todo o sistema de opressões reforça e é reforçado pelo capitalismo e não existe nenhum interesse em combater este sistema.

Eu matei Jamey Rodemeyer

Você talvez nunca tenha ouvido falar em Jamey Rodemeyer, tudo bem, eu só vim a conhecer a história há pouco menos de um ano. A história pode ser lida neste post da Época. Jamey cometeu suicídio dia 18 de setembro de 2011, aos 14 anos.

Eu mato Rodemeyer todos os dias ao ser mais tolerante com homofobia e apagamento das identidades bi/pansexuais do que deveria. Eu mato Rodemeyer todos os dias ao não me assumir homossexual publicamente em todas as esferas da minha vida. Eu mato Rodemeyer todos os dias ao me dar ao luxo de me preservar, ao invés de discutir, contra-argumentar, reforçar meus argumentos fracos e insistir em trazer a mudança que eu tanto desejo.

A morte de um adolescente jovem e saudável igual Jamey nunca poderia ser considerada sem responsáveis. Ao permitirmos nos isentar de culpa em um episódio em que uma pessoa em estado vulnerável comete suicídio estamos tirando toda a humanidade de nossas vidas. Ao aceitarmos que assim é “como as coisas são” estamos negando a nossa parte inalienável de tentar tornar o mundo o lugar onde queremos viver. Acreditar não ter matado Jamey Rodemeyer é acreditar que estamos isentxs de responder pelas consequências de nossos atos, é não saber medir o poder dos próprios atos.

Jamey Rodemeyer foi obviamente morto por cada mensagem destrutiva deixada em seu blog. Parabéns se você não mandou nenhuma destas, mas a culpa ainda é sua por negligência e omissão. A culpa é de todxs nós, por termos permitido que a rede tenha se tornado esta terra de ninguém, onde consideramos aceitável a forma mais brutal de violência e agimos como se isto fosse natural. Como diria Desmond Tutu, a cada vez que nos mantemos neutros em uma situação de opressão estamos ao lado do opressor. E, portanto, toda vez que eu me calo estou matando novamente Jamey Rodemeyer.

A morte de Jamey é um alerta para nós. É um alerta do poder do nosso discurso omisso. É um alerta de como nossas ações demandam responsabilidades. É um alerta de como não podemos tolerar a intolerância se quisermos termos um pouco de paz de espírito.

Desculpa, Jamey. Eu teria te amado caso tivesse te conhecido em vida. Porém faço deste blog uma homenagem póstuma a sua dor, um sussurro em meio ao grito gigantesco do bullying homofóbico, e o faço por você.

(Ontem, dia 17 de maio, foi o Dia Internacional Contra a Homofobia. Em 17 de maio de 1990 a homossexualidade foi retirada da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS))

[GUEST POST] Visibilidade trans* nos meios LGBT

Hoje, dia 29 de janeiro, é o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A data foi criada para empoderar pessoas trans* e incentivar que as pessoas cis se eduquem sobre o assunto. Para ajudar na construção deste cenário trouxemos um texto escrito pelx Muni, do Minoria é a mãe, que fala sobre a falsa noção de inclusão das pessoas trans* no movimento dito LGBT.

“Lembro que ano passado, no dia da visibilidade trans*, eu li alguns posts sobre o assunto. Àquela altura, apesar de já ter enveredado pelo ativismo feminista e LGBT há algum tempo, eu não fazia ideia da fatia enorme de informação que me faltava. Eu tinha visto filmes e documentários, tinha lido pessoas falando sobre transexualidade, mas ainda não sabia exatamente o que eu estava ouvindo; só sabia que havia algo de errado com o que eu pensava antes e que lentamente minha cabeça estava se abrindo.

À medida que fui aprendendo mais sobre o que era, de fato, identidade de gênero, transexualidade e transgeneridade (que vai muito mais além do que a mídia gosta de nos vender) fui percebendo algo que, apesar de muito óbvio, não enxergamos muito claramente na maior parte do tempo: nós achamos que estamos incluindo pessoas trans* quando falamos a sigla LGBT, mas não estamos.

Apesar de agora eu estar falando mais especificamente da minha experiência com essa situação, acredito que ela não seja muito diferente da de muitos outros grupos. O que eu percebi foi que a falta de visibilidade das pessoas trans* em grupos LGBT vêm principalmente de dois motivos: desinteresse e falta de informação. O T vem junto com a sigla automaticamente, mas dificilmente alguém se lembra por que ele está lá, já que ser trans* não costuma ser a realidade da maioria dos membros. Isso não é uma exclusividade de grupos LGBT; todos nós em algum momento desconsideramos alguma coisa, ou nem sequer chegamos a pensar nela, só porque não nos atinge diretamente.

Já com a falta de informação o buraco é mais embaixo. O próprio fato de você não se interessar pelo assunto faz com que você também não se interesse em procurar saber mais sobre ele. É assim que, com tantas coisas na vida, apenas absorvemos a informação que nos rodeia e não procuramos entender de onde ela vem e se está realmente próxima da realidade. Absorvendo apenas o que os filmes mais mainstream mostram sobre transexualidade, por exemplo, pensamos que só existem mulheres trans* e que todas seguem a mesma narrativa. Pior ainda: absorvendo apenas as participações de personagens transexuais na maioria dos filmes ou programas, pensamos que é aceitável fazer piada e exotificar essas pessoas e seus corpos. Então é geralmente nesse contexto que encontramos boa parte das pessoas com quem nos relacionamos no dia a dia, façam elas parte de um grupo específico ou não.

Já sabemos o que é homofobia e lutamos contra ela – embora muitas vezes ignoramos as particularidades da lesbofobia e da bifobia. Mas ainda nos confundimos quando se fala em transfobia e cissexismo. Uma busca simples no Google pode te retornar um exemplo disso: na maioria das matérias e notícias sobre assassinatos de transexuais e travestis, além dos pronomes errados e da falta de respeito pelo nome social da vítima, o que mais se vê é a associação do fato com a homofobia. Ninguém fala em transfobia. Ninguém fala sobre o fato de uma mulher trans ser morta porque seu assassino descobriu que “ela não era mulher de verdade”, mas falam como se sempre se tratasse de um crime contra homens homossexuais vestidos de mulher.

Se você faz parte de um grupo LGBT que ainda não incluiu as necessidades específicas das pessoas trans* nas suas pautas, dê a sugestão. A letra T não está lá de enfeite. Se em todo grupo houvesse reuniões específicas para falar sobre transexualidade/transgeneridade, trocar ideias e esclarecer dúvidas, a desinformação espalhada por anos e anos de senso comum desapareceria mais rápido. Pode não resolver o problema, mas certamente ajuda muito simplesmente começar a pensar sobre o assunto e perceber que, afinal, mesmo que isso não lhe atinja diretamente, atinge muita gente e você também tem a capacidade de informar outras pessoas e mudar a sua realidade no que estiver ao seu alcance. Todos nós temos.”

“Você está no banheiro certo?” – Pessoas trans* e algumas perguntas que são feitas a elas.

V de Vingança

A conspiração da pólvora foi uma tentativa malsucedida de explodir o parlamento inglês utilizando trinta e seis barris de pólvora, os quais seriam detonados pelo especialista em explosivos Guy Fawkes. A ação, planejada em maio de 1604 por John Grandt e Robert Catesby, pretendia reinstaurar o governo católico no país ao destituir o poder vigente que não concedia direitos iguais a católicos e protestantes. A data escolhida era exatamente o dia em que o rei Jaime I estaria presente para pronunciar a fala da abertura das atividades da House of Parliament, o 5 de novembro, esperando, num só golpe, por tudo pelos ares: o monarca e os parlamentares. No trono vacante imaginavam colocar a princesa Isabel, a filha católica do rei.

Foi a partir de 1607, um ano depois da execução e esquartejamento de Guy Fawkes e sete dos seus companheiros, ocorrida em 30 de janeiro de 1606, que a população de Londres começou a celebrar o fracasso do atentado a cada dia 5 de novembro por meio da Bonfire Night [ou Noite das Fogueiras], noite em que acendem fogueiras e lançam fogos de artifício para externar seu contentamento. Guy Fawkes tornou-se a representação simbólica do traidor, do Judas capaz de entregar a Grã-Bretanha às potências do catolicismo inimigo: a Espanha e o Papado.

Em “V de Vingança” (V for Vendetta, no original) Alan Moore e David Lloyd criam uma distopia onde o mundo está em recessão devido a uma guerra nuclear e um governo totalitário surge tomando conta da vida das pessoas. Nas obras do Alan Moore as histórias sempre se misturam e confundem, elementos de histórias diferentes se complementam e formam uma terceira história, totalmente diversa das que estavam sendo contadas. E na vida, que também imita a arte, podemos ver efeitos semelhantes onde várias histórias se encontram em curso, em ritmos diferentes e se cruzam e modificam, numa intrincada rede de fatos.

Codinome “V”, inspirado por Guy Fawkes e a conspiração da pólvora, resolve dar direitos iguais a todos os cidadãos, nem que pra isso ele precise usar a violência. Na tentativa de colocar o seu plano em ação ele conhece Evey Hammond, uma mulher que perdeu tudo que tinha nas mãos do governo. Para não deixá-la desprotegida V acaba a levando para sua casa, a Galeria das Sombras. Apesar de concordar com a causa Evey discorda dos métodos do mascarado e não quer estar associada a nenhuma morte. Esta divergência pode ser vista em um diálogo do filme:

Evey: Você tem algo a ver com isso?
V: Sim, fui eu que o matei.
Evey: Você… Ai meu deus.
V: Está com raiva?
Evey: Eu, com raiva? Você acabou de dizer que matou Lewis Prothero!
V: Quando eu matei o oficial que te atacou, você não reclamou.
Evey: O que?
V: Violência pode ser usada para o bem.
Evey: Do que está falando?
V: Justiça.
Evey: Ah, claro.
V: Não há julgamento neste país para homens como Prothero.
Evey: E você vai matar mais gente?
V: Sim.

V acredita no poder da violência como símbolo de enfrentamento de uma estrutura de sociedade da qual ele não concorda. Uma filosofia análoga a esta é a de que a não violência é patriarcal, que aceitar as agressões cotidianas de forma pacífica reforça as estruturas do sistema opressor.

Na sociedade distópica de “V de Vingança” as pessoas negras, judias e homossexuais são perseguidas, torturadas e encaminhadas a campos de readaptação onde são usadas para experimentos médicos. Uma encarcerada, Valerie, ciente de que não sobreviveria aos experimentos, escreve uma carta para manter intacto um pedaço que é só dela: a integridade. A cena em que Evey lê a carta, uma autobiografia, pode ser vista a seguir:

O roteiro do filme é adaptado dos quadrinhos para o cinema pelo casal de irmãos que dirigiu a trilogia Matrix, Andy e Lana Wachowski. Em 2012, Lana foi vencedora do Human Rights Campaign Visibility Award [Prêmio de Visibilidade da Campanha pelos Direitos Humanos] e nos conta em um discurso tão emocionante quanto a carta de Valerie um pouco da sua vida. A cerimônia pode ser vista, em inglês, a seguir:

Portanto, “lembrai, lembrai, o cinco de novembro: a pólvora, a traição e o ardil”, um dia simbólico para que nunca desistamos de lutar por aquilo que achamos que é certo.

Dia do Empoderamento

Segue um relato que mostra a importância de nos desvincularmos dos nossos preconceitos e ter sempre a mente aberta. O post é um apelo para termos mais aceitação do que é diferente sem invalidar automaticamente o que nos é desconhecido.

O preconceito acadêmico. Acho que esse não é lá muito comum, mas existe, te garanto!

Eu estudo em uma importante faculdade pública e faço um curso de exatas, por afinidade simples e pura. Mas sempre fui e sempre serei uma pessoa cheia de curiosidades. Por isso, tendo a estar sempre participando de eventos diversos. Desde de palestras sobre mecânica quântica relativísitca, até discussões sobre a influência do materialismo histórico no Brasil.

Entretanto, diferente do que se esperaria, o meio acadêmico é de um preconceito absurdo! O especialista de uma área nunca é bem visto em outras. E, apesar de humanóides sempre reclamarem dos ‘engenheiros alienados’ que vivem divulgando suas festas caríssimas e com música ruim, os próprios se esquecem de como estão continuamente propagando valores preconceituosos. Claro que existe o preconceito da outra via, dos exatóides com relação aos ‘pé-sujos’, mas a proposta deste texto é contar sobre histórias pessoais e esta é a minha.

Então, meus queridos colegas acadêmicos das mais diversas áreas, antes de entrar num ciclo sem fim de preconceito e distanciamento acadêmico, pergunte-se qual é o real sentido da academia e não entre no principal objetivo do capital na universidade: criar especialistas alienados.

Participe você também do Dia do Empoderamento!

Dia do Empoderamento

Desde que eu recebi este relato eu fico me perguntando sobre como aconselhar uma pessoa nesta situação. Pedi conselhos pra diversas pessoas, mesmo que tenha sido tudo meio inconclusivo. Segue o relato com uma curta edição.

Inicialmente, gostaria de dizer que sentiria me realizado numa situação de empoderamento. Mas na verdade, encontro me no processo de empoderamento, porque aí não me consigo libertar dos pré-conceitos e da intimidação do olhar do outro.
Para mim, é bem claro que sou homoafetivo. Tenho tesão por homem. Já tive três grandes amores. Mas ainda tenho a dificuldade de abrir o jogo, de defender a causa, de se assumir  para a família.
Ultimamente, com a rede social facebook, principalmente, na comunidade _____, tenho modificado algumas atitudes. Com a leitura do mestrado em Foucault e Estudos Culturais, tem me dado mais sustentação e compreensão de mim mesmo e sobre a realidade ao redor.
Apesar de achar que as pessoas sabem de mim, ou desconfiam. Sou muito reservado. Quando defendo o grupo, argumento com timidez e inseguro (porque tenho tabu em falar sobre isso).
E vivo num conflito: ser aquilo que sou, ou aquilo que as pessoas querem que eu seja?
Já perdi amigos e conhecidos por saberem ultimamente que ando defendo as causas LDGBT na internet e na rodinha de conhecidos, bem como estar criticando a Igreja, de onde vivi a minha vida até aos 21 anos.
Mas ainda é bem claro para mim: João seja vc! Viva a sua vida! Mas é dificil qdo as pessoas te apunhalam por trás, qdo dizem o meu erro está relacionado a minha sexualidade.
Enfim, nesse processo de empoderamento quero chegar a uma fase da minha vida em que posso abertamente ser aquilo que sou, porque quero casar e adotar um filho. Quero viver a minha sexualidade, mas o imaginário social e a moral da atualidade dificulta existir enquanto aquilo que sou.

Eu sempre tive muita dificuldade de aceitação, passei boa parte da adolescência de forma assexuada devido à heteronormatividade compulsória. Só fui assumir que era gay depois que, coincidentemente, vários dos meus amigos já tinham se assumido, e foi também o meu primeiro porre. Passei muito tempo tentando descobrir como contar pros meus pais, pra não precisar guardar este segredo, perguntei pra todxs amigxs como eles fizeram, mas nunca conseguia tomar coragem o suficiente. Acabei contando de qualquer jeito, sem muito planejamento e nem nada do tipo. Então este aconselhamento me deixou bastante preocupado, inclusive porque percebo claramente o peso da decisão.

Sair do armário é deixar o mundo mais colorido!

De todas as opiniões que eu ouvi, a principal se concentrava em reforçar que sair do armário é um ato com grande peso político e que nós apenas podemos decidir quando ele começa, nunca quando ele termina. É difícil, e de certa forma nunca termina. Entretanto, sair do armário é uma ferramenta importantíssima para acabar com a homofobia, mostrar que nós existimos e que não somos pessoas diferentes por causa disso.

Dia 11 de Outubro é o Dia de Sair do Armário (National Coming Out Day) e é realizado nos Estados Unidos desde 1988. Está um pouco tarde para participar, mas ainda dá tempo de ver a seleção de vídeos da ONG Estruturação em http://diadesairdoarmario.tumblr.com/.

Comentem com dicas, contando as experiências de vocês e ajudando a criar uma rede de apoio entre nós. Se você gostou da história e quer participar também é só clicar aqui.