Relato anônimo para o Dia Internacional Sem dieta #2

Olá, amigxs. Eu queria compartilhar a história de minha relação com meu pé. É, meu pé. Não que eu não possua milhões de aspectos que poderiam ser abordados aqui que causariam mais comoção – de fato, faço parte de algumas minorias discriminadas. Eu só queria demonstrar como algumas pequenas agressões, como comentários que parecem apenas ligeiramente críticos, podem minar a auto-estima da pessoa a níveis alarmantes. Talvez assim alguns percebam que determinados “pontos de vista” preconceituosos podem ferir.
Quando eu entrei na puberdade, como a maior parte das meninas (cis), eu tive que passar por uma turbulência causada pela minha imagem no espelho versus a imagem midiática. Nesse ponto, passei bem. Veja só, eu era uma gordinha e por longos anos assim continuei, e raramente me importei com isso. Eu me via como gostaria de ver, e isso é claro, incomodava algumas outras meninas. Uma parente minha (da mesma idade) era uma dessas mocinhas que se encaixam nos padrões esperados socialmente e que servem de exemplo para quem acha que apenas por essa razão a felicidade bate a porta. Sendo bastante provocadora, gostava de dar umas alfinetadas nas amigas, e, eventualmente, em mim. Pois, a despeito da minha série de imperfeições, ela resolveu falar sobre meu pé:
“seu pé é feio”, “com a unha pintada fica ainda mais horrível” “aff, cobre isso” – não obstante, convenceu as amigas e irmã desta opinião e eu fui bombardeada por comentários semelhantes.
Meu sapato preferido na adolescência era tênis. Eu tive coleções,  fazendo minha mãe quase enlouquecer na sua saga para que eu expusesse meu pé; às vezes, recusava ir à praia ou a piscina para não ter que ficar descalça, e até mesmo quando ia, usava um sapato fechado, evitando que os outros olhassem. Sempre tive um pouco de inveja desses que andavam de chinelos para cima e para baixo – pés de todos os tipos. Eu pensava comigo mesmo qual a razão de não conseguir também me livrar disso. Foram alguns anos. eventualmente, eu era obrigada a usar sandálias, chinelos, sapatos altos que mostravam meus dedos. Não digo que encarei como uma libertação, apenas estava menos desconfortável.
Eis que um belo dia eu vou à manicure (um casamento); a mulher me pergunta se eu vou pintar a unha dos pés. Eu aviso que o sapato que eu vou usar é fechado e eu não costumo usar abertos. E acho que não combina, complemento, não fica bem no meu pé. A moça do lado me censura: “se eu tivesse um pé como seu, eu pintaria sempre. É tão bonitinho.”
Anos de feminismo me livraram da obsessão da beleza, da compulsão por magreza, do sentimento de inadequação. Mas acho que o grande sentido foi ver que essa é a corrente de insegurança a qual somos todxs postos: “nada seu é bom o suficiente”, “você poderia ser perfeitx, se tentasse”, “você não precisa ser você, pode ser muito melhor”. E quando não o conseguimos, tal qual é esperado, nos escondemos, nos mutilamos. O pé da moça não tinha nada errado. Nem o meu. De fato, estou descalça agora, admirando esta parte de mim que é tão minha quanto todo o resto. E, sendo minha, é bela (:

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2 Respostas para “Relato anônimo para o Dia Internacional Sem dieta #2

  1. Oi Felipe, nós escrevemos um guest post pro dia internacional sem dieta ~atrasado~ como fazemos pra te mandar? Vc deletou o face, ai ficamos sem saber…

    beijão!

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