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Desenhando a falsa simetria

Se você esteve online nas últimas duas semanas você deve ter ouvido falar no Lulu. É um aplicativo para Android e iOS em que mulheres podem avaliar parceiros sexuais antigos e atribuir notas à sua performance, além de possuir algumas tags pré-definidas.

Muito se fala nas tags do Lulu, em especial a polêmica “vale menos que um pão na chapa”, mas muitas das tags (apesar de serem agregadas entre positivas e negativas) são de caráter contextual. Alguns exemplos de tags são: curte Romero Britto, usa Raider, acende um cigarro no outro, 4 e 20, três pernas, fica na dele, mais pop que o papa, cavalheiro e ursinho. Acredito que nenhuma dessas informações é inerentemente ruim ou boa, mas que pode ter seu caráter variável de acordo com a situação.

A criadora do aplicativo diz que a sua intenção é virar a mesa nas conversas de bar. Muito se foi discutido a respeito, desde questões de privacidade no Facebook até diferentes formas de abordagem ao serviço e como este estaria inserido dentro da lógica patriarcal.

A discussão tomou ainda mais fôlego, especialmente nos meios feministas, com o surgimento do aplicativo que pretendia ser o seu equivalente simétrico: Tubby. A grande questão se concentra em uma falsa simetria entre mulheres avaliando homens e homens avaliando mulheres.

Não entendeu? Eu explico. O Lulu, apesar de nunca declarar, se pretende ser universal. O posicionamento é tão ingênuo que chega a soar infantil. Para a desenvolvedora todas as pessoas no Facebook são ou homens ou mulheres e são heterossexuais (de fato, as pessoas poderiam ser bissexuais/pansexuais sem grande perda de usabilidade). O aplicativo ignora pessoas homossexuais, não-binárias, assexuais e até mesmo crianças e idosas. É um erro grande e grave, mas é um erro extremamente ingênuo. Em contrapartida o Tubby é um aplicativo de caráter universal, mesmo que seus desenvolvedores, cegos por terem seu privilégio masculino questionado, não percebam.

Vivemos em uma sociedade profundamente enraizada no binário de gênero (ou seja, que acredita que só existem homens e mulheres) e que acredita que existem papéis claramente separados entre esses dois gêneros (mesmo que, contraditoriamente, a linha divisora se apresente em lugares diferentes de acordo com o contexto). Então desde que nascemos nos é ensinado que papel devemos exercer de acordo com o gênero que nos é atribuído no nascimento. Isso quer dizer meninas de rosa, meninos de azul.

Mais profundo que isso, quer dizer que a mulher tem sua sexualidade podada desde os primeiros anos de vida, é ensinada a não ser estuprada, é ensinada a cozinhar e cuidar da casa, é ensinada a se maquiar e se embelezar para agradar ao olhar masculino. Desde muito novas as mulheres são sexualizadas e precisam se acostumar a viver com o fantasma do assédio as perseguindo. Desde muito novas aprendem que se foram estupradas ou se sofrerem algum tipo de violência a culpa é dela porque estava de roupa curta, porque bebeu, porque resolveu sair sozinha a noite…

A sexualidade da mulher é sempre tão severamente policiada e punida que existem diversos casos de crimes contra mulheres que resolvem deixar antigos parceiros, o feminicídio disfarçado de crime passional. Outra forma de atacar a sexualidade da mulher é o que chamamos de “revenge porn”, material pornográfico divulgado por um (ex-)parceiro como forma de atacar a credibilidade feminina. É sobre esse pressuposto que se apoia a declaração de que lésbicas não gostam de homens porque “nunca foram bem comidas”, podendo culminar em casos de “estupro corretivo”. É porque a sexualidade da mulher é domínio público (exceto dela mesma) que caso ela sofra qualquer agressão a culpa é somente dela, que estava ciente de estar expondo a sua sexualidade e não fez nada para evitar isso (até porque tudo que ela fizer apenas reforça a própria sexualidade, nunca atenua).

Vivemos numa sociedade em que a mulher vale menos se tem sua vida sexual exposta, em que diversos níveis de xingamento são baseados nessa conduta (inclusive, o pior xingamento para ofender um homem é direcionado à sua mãe). Não existe uma postura inócua ou neutra em expor a sexualidade de uma mulher, porque muito da imagem que ela passa depende disso. A sexualidade e a vida sexual vão ser invocadas em diversas situações, mesmo que isso não influencie o tema em questão. Na hora de procurar emprego, na hora de ser avaliada pelo chefe, na hora de andar na rua, na hora de conhecer novas pessoas, na hora de ficar quieto no seu canto.

O Lulu é uma brincadeira inocente e ingênua, ainda que inconsequente. É uma forma de mulheres se unirem e trocarem opiniões entre si de quem elas gostaram de ficar e indicar para as conhecidas as maiores qualidades e os maiores defeitos dos rapazes. Conceito que já foi explorado de outras formas em outros meios. Entretanto a sexualidade feminina precisa e será sempre julgada. O Lulu falha por não saber onde se posiciona dentro da sociedade.

Numa sociedade machista e misógina como a nossa uma mulher só merece respeito se for casta, se não gostar de sexo e de preferência se só fizer para agradar aos homens. A sexualidade da mulher é estranhamente controlada por parâmetros ambíguos: espera-se que a mulher seja uma dama na sala e uma puta na cama.

Os desenvolvedores do Tubby sabem disso e deixaram explícito no beta do aplicativo. O critério de inteligência diminuía a nota da mulher, assim como desempenho e iniciativa. O critério de disponibilidade aumentava a nota. Ou seja, quanto mais disponível uma mulher estivesse para servir sexualmente “o seu homem”, melhor a nota recebida. Os desenvolvedores do Tubby diziam que as mulheres que se descadastraram do seu site “arregaram”, como forma de ofender a mulher uma última vez enquanto ainda havia chance.

Recentemente o Tubby foi proibido pela justiça e os desenvolvedores do aplicativo lançaram um vídeo “explicando” que tudo não passava de uma brincadeira, que o aplicativo “falso” servia para denunciar o sexismo e misoginia gritantes na nossa sociedade e nos alertar para as questões de segurança. Porque essa é a mentalidade brasileira, qualquer coisa pode (e até em algum grau deve) ser feita se for em nome do humor, se for engraçado. Acredita-se que toda e qualquer coisa é aceitável se for em nome de agradar o status quo e a sociedade hegemônica. E é por isso que, criadores cientes disso ou não disso, o Tubby é um aplicativo de caráter universal.

P.S.: Em relação à questão de privacidade que foi amplamente discutida devido ao surgimento destes aplicativos: eu não me importo em ter meus dados coletados e utilizados por empresas para segmentação de mercado. O meu maior problema é que as empresas vão descobrir que gosto de azul e vão me vender coisas azuis, mas não vão descobrir que eu sou pró-transfeminismo e contratar pessoas trans*, não vão descobrir que eu sou contra o binário de gênero e produzir brinquedos sem marcadores de gênero e não vão se aprofundar em nenhuma destas questões sociais. Todo o sistema de opressões reforça e é reforçado pelo capitalismo e não existe nenhum interesse em combater este sistema.

[GUEST POST] E a sua alimentação, como está?

Desabafo da Fernanda, do blog Gordas e Feministas, para o Dia Internacional sem Dieta.

Bom, hoje vou listar tudo que comi, sem medo de julgamento, pois existem regras de comer certo? Comer de três em três horas, nem todo mundo segue isso por N motivos, mas quando o gordo burla essa regra: AH, PODE ESPERAR O DISCURSO PRONTO!

É verão, tá quente que só o capeta… vim visitar minha mãe, que mesmo preocupada com a minha saúde e meu peso, sem querer é gordofóbica! Não posso me demorar muito nesses detalhes pois não é certo expor a intimidade dela, enfim. Mas pelo meu post anterior dá para entender porque a citei como gordofóbica.

Vamos ao cardápio e depois os fatos, mas, sério mesmo, eu não tô preocupada com a opinião de vocês em achar que eu comi muito, talvez eu coma mesmo e não nego, não dormi direito, fiquei nervosa e descontei na comida, assim como uma pessoa desconta nas drogas, em outras pessoas ou em qualquer outra coisa.

– Comi três pães cada um com um hambúrguer*, mas não seguido do outro. Isso da hora em que acordei umas sete da manhã até umas onze…

– Fui almoçar umas duas e meia da tarde, tomei uma caipirinha de abacaxi enquanto aguardava a refeição…

– Eu almocei: arroz, feijão, brócolis e couve flor, cenoura e batata, tudo veio em forma de salada, sabe? E algumas batatas fritas, não comi muito. Ah, e um pouquinho de vinagrete.

– Minha mãe: arroz, feijão, dois bifes de picanha pequenos, fritas e a mesma salada que eu comia.

Bom, a nível de esclarecimento a carne causa uma saciedade enorme, não me lembro ao certo para dizer o tempo exato, porém eu como vegetariana extrema (minha alimentação é cem por cento vegetal) e dependendo do que eu comer, principalmente se for legumes, além de ter uma digestão MUITO mais rápida, a fome volta mais rapidamente também. Óbvio que isso depende muito do que comer, mas minha alimentação básica é essa e o resultado: eu como mais que uma pessoa”normal”.

Bom, quando deu umas seis e meia da noite, eu senti fome, porém como ainda se falava do almoço e de como estavam satisfeitos, fiz um pão com meu ultimo hambúrguer de soja e fui comer escondido no quarto – quando morava com a minha mãe essa situação se repetia facilmente, esperava ela ir dormir ou comia em um horário diferente do dela para poder comer “à vontade”. Me recordei disso há pouco, pois é algo que dilacera tanto que tinha apagado da minha mente…

Deitei um pouco, acordei umas nove horas e minha mãe disse: “Comprei pão, para NÓS não precisarmos jantar”. Eu fiquei puta pois estava aguando por um brócolis de frigideira e arroz fresquinho, não falei nada mas fiquei resmungando, o que rendeu uma PUTA DUMA BRIGA, no estilo: “VOCÊ NÃO PODE FICAR UM DIA SEM JANTAR, FERNANDA???”

Virou uma discussão de gritarias, UMA VERDADEIRA BOSTA, resumo: Eu não comi até agora que são exatamente 23:14, tô com os olhos doendo e a cabeça martelando, chorei demais, chorei de raiva, de mágoa, de me sentir invadida e não compreendida e lhes digo esse fato já ocorreu inúmeras vezes..

Não sei os frutos que vou colher desse blog, e nem do tanto em que estou me expondo, mas eu sei que TEM MUITAS GAROTAS E GAROTOS, que estão se identificando com o que escrevo, e considero isso um humilde “caldo político”.

Não é fácil, tá maior clima aqui em casa por MINHA causa, se a desculpa for a preocupação com a quantidade de comida que eu como, eu tenho certeza que eu comendo mesmo minhas frituras, meus doces veganos que são MUITO MUITO saudáveis, meus salgados que incluem temperos mil, um montão de legumes, e comendo BEM, bastante; sempre ouvi que meu estomago ia dilatar e não ia ter como e ter que operar, cresci com essa merda de medo, e isso fodeu e muito minha relação com a comida, porém é algo que tento controlar, mas eu te garanto que quem devia vigiar a própria saúde e uma boca que fuma há mais de vinte anos, come todos os tipos de carne e suas gorduras, ingere pouquíssimas frutas, não consome legumes – a não ser quando venho visitá-la – quem não consome NADA saudável, é ela e não eu. Tô num daqueles dias em que a opressão te destrói tá ligado?

Vou frisar pela última vez que esses escritos não são apologistas a obesidade e sim relatos do que vivemos e nos oprime e dilacera a alma como SER HUMANO.

Ass.: Fernanda, GORDA QUE COME MUITO, MESMO!

AHHHHHHHHHHHHH, já ia me esquecendo, minha mãe também está tomando uma forma manipulada: CAPSULA DE ÓLEO DE CARTAMO (CARTHAMUS TINCTORIUS).
Descrição: AUMENTA SACIEDADE, diminui a gordura localizada e colesterol.

LEGAL MUNDO, ela foi dormir puta por causa da treta e a culpa é minha.

*Hambúrguer de soja, pois sou vegetariana.

[GUEST POST] Dia Internacional Sem Dieta

[Trigger Warning (aviso de conteúdo possivelmente incômodo): relato sobre distúrbios alimentares, bullying, gordofobia.]

É de se esperar que muita gente esteja feliz com o fato de hoje ser o Dia Internacional Sem Dieta. Em partes, também estou, em especial por saber que existem pessoas que se importam com essa causa o suficiente para reservar um dia só pra ela. Claro que o meu ideal seria o de que todo dia fosse para questionarmos o que estamos fazendo com nossos corpos e nossas mentes, ou, melhor ainda, o que nos ensinam a fazer conosco. Mas não é assim e, mesmo hoje, existem milhões de pessoas que vão chorar ao se olhar no espelho, e outras tantas que vão pular uma refeição. Meu coração -como sobrevivente de uma infância traumática e um transtorno alimentar -está com essas pessoas.

A minha história não é especial. Eu era uma criança que não era magra. Eu não era gorda, mas eu não me lembro de jamais me sentir confortável na minha própria pele, sempre me comparando com outras meninas, sempre observando o tamanho das partes do corpo delas e o tamanho das minhas. Mas num padrão de beleza facista, (que já atingia crianças, vejam só) eu era gorda. Eu era um “caminhão da Vale”. Eu era uma baleia, porca (ou, em inglês, “pig”, como a galera do curso de inglês aprendeu a me chamar), nojenta. Eu nunca ia ter um namorado. Eu nunca iria poder usar as roupas que queria. Minha mãe me disse, aos meus 10 anos, que se eu tivesse 15, ela diria que eu estava grávida (por causa da barriga). Me ensinaram a çontar calorias bem novinha, e comida virou um sinônimo de culpa para mim. Parece horrível para quem não viveu isso… e, se você que está lendo, é uma das pessoas que nunca viveu esse pesadelo (quando sequer contei tudo), eu sinto informar que não sou especial por isso. Existem muitas pessoas como eu por aí, que ouviram as mesma coisas, ou muito pior. Somos muitxs, infelizmente.
Eu não me lembro da primeira vez que comecei com comportamentos bulímicos, mas eu era nova demais para sequer estar preocupada com algo além de brincar e estudar. acho que sequer havia menstruado. Não quero entrar em detalhes sobre isso, mas o que importa é que eu sobrevivi. Não falo isso querendo dizer que sou alguém que quase morreu por causa desse transtorno alimentar e que tem uma foto de “antes” e “depois”. Não tenho nada disso, não é a minha experiência.
O que eu tenho da minha vida, como alguém que foi vítima de um padrão de beleza que me sufocou e me drenou, é que eu estou aqui, nesse 6 de Maio, Dia Internacional Sem Dieta. E que estarei aqui a amanhã, com as mesmas dores de quando eu tinha 13 anos e chorava na frente do espelho, porque o mundo não me permite deixar pra trás a insegurança de não ser uma mulher de revista, de não ser a minha prima, a minha colega de sala… de não ser qualquer outra pessoa que não seja a baleia da 4ª série, ou do 2º período da faculdade. De não ser, enfim, magra.
Aprendi com o feminismo e outras lutas que não é normal viver o que vivemos. Que não é justo e que temos o direito de dizer “não” a padrões de beleza que nos oprimem e magoam. Eu decidi dizer “não”, mas não foi há um ano e meio, quando procurei ajuda médica, e nem hoje que me libertei. Talvez eu nunca me liberte, mas eu espero que outras pessoas não ouçam que ninguém vai amá-las por serem gordas. Eu espero que comprar um jeans não seja doloroso, e que elas repitam o almoço sem medo.
Acredito que isso seja possível. Um dia de cada vez. Uma dieta a menos de cada vez.
Nem sempre damos conta de lutar porque somos humanos. Existem dias em que um discurso body-positive não me traz nada de bom, porque minhas cicatrizes estão abertas demais, e esses são dias difíceis. E está tudo bem em ter dias assim, porque o apoio não é muito grande. Mas existem outros dias em que ver a confiança e a luta de outras pessoas – em especial outras mulheres – me dá força e um bocado de esperança. Espero que, dia a após dia, e, aos trancos e barrancos, a minha experiência e a de tanta gente seja, de fato, passado.
(Essa é só a minha experiência e como decidi encarar essa situação.)

por Carol Marques Lage

contato: ponycase@gmail.com

http://www.facebook.com/carol.marques.meow

Love your body day

Hoje é o Love your body day [Dia de amar o seu corpo], campanha para estimular que as pessoas mandem fotos de seus corpos mostrando que todos os corpos são bonitos. O cartaz da campanha de 2009 faz um trocadilho com o provérbio em inglês e diz que a beleza está no “eu de quem vê”, ao invés de “no olho de quem vê.”

Somos constantemente bombardeados com diversas instruções de como devemos, ou não, ser. Padrões de beleza são propagados de forma opressiva e reforçam indiretamente diversos preconceitos internalizados ao validar uma beleza sobre a outra. Em linhas gerais o ideal de beleza brasileiro é o europeu, por mais que a nossa população seja miscigenada e poucas pessoas se enquadrem nesta categoria. O padrão de beleza nacional, assim como o mundial, é submisso à ditadura da magreza, e prega que quanto mais magra a pessoa for “melhor”.

Esta definição rígida de como devem ser os nossos corpos causa todo tipo de mal-estar psicológico, desde o incômodo de se olhar no espelho, passando pela fixação em dietas de emagrecimento e culminando na exclusão social de diversas minorias que não se incluem na norma. Esta eterna inconformidade com um padrão de beleza também alimenta uma indústria milionária que ensina exercícios físicos, dietas milagrosas, cosméticos, procedimentos cirúrgicos, entre diversas outras facetas deste mercado.

Intrinsecamente relacionado a este padrão opressivo de beleza está o binário de gênero. Algumas características tidas como bonitas em homens não são bem vistas em mulheres, e vice-versa. Esta diferenciação da beleza masculina e da beleza feminina cria uma forte pressão popular para que as pessoas que se adequem a um dos gêneros. O sentimento subjetivo de precisar alinhar a sua identidade de gênero com a sua expressão de gênero em um dos extremos é o que chamamos de disforia*[1] de gênero.

A patologização das identidades trans*, e por extensão do gênero como um todo, é especialmente maléfica ao criar mecanismos sistemáticos que criam essa sensação de estranheza com o corpo ao mesmo tempo em que impede os procedimentos de adequação. Coloca em risco as pessoas que assumem tratamentos por conta própria, que muitas vezes acabam optando por métodos ilegais ou obsoletos, devido ao engessamento do sistema médico.

Portanto fica a dica do dia de hoje: ame o seu corpo. Amar o próprio corpo é um processo lento, muitas vezes oneroso e que precisa ser sempre atualizado, entretanto existe uma enorme satisfação pessoal ao aceitar o seu copo do jeito que é. Nossos corpos sempre serão usados contra nós como ferramenta de opressão, então se libertar destes esteriótipos patriarcais é uma forma de nos afirmarmos perante nós mesmos e a sociedade. Love your body.

[1] Disforia* aqui é usado de forma diferente do discurso médico. Disforia* seria a direta experiência binarista-cissexista da norma cisgênera. Ou seja, a norma orienta um binarismo – se falhamos em cumprir nos sentimos socialmente e morfologicamente inadequad@s. Esse sentimento é o que chamamos de disforia*. A disforia* só existe porque existe uma norma que regula comportamentos e morfologias. Só existe porque a sociedade é baseada da cisnorma, ou seja, no alinhamento compulsório morfologia-gênero. Isso não significa que o sentimento disfórico seja menos real ou passível de desconsideração, mas sim que o reforço das normas binárias cissexistas produz e reproduz a disforia*. Não é, como acredita a ciência, um sentimento puramente subjetivo das pessoas trans*, é um sentimento produzido por uma norma social. (via http://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/)

Relato de uma balonada

Em situações como a deste vídeo os nossos corpos são usados contra nós, como forma de nos diminuir, nos forçando a querer acatar a norma por pressão popular. Nos são vendidos corpos magros, sarados, sem estrias ou celulite, e nas entrelinhas a cruel mensagem de que você não tem um igual porque não se esforçou o bastante.

“Estou preocupadx com a sua saúde!”
Você percebe que me humilhar afeta negativamente a minha saúde emocional, né?

Nossa sociedade impõe um padrão de corpos que não engloba boa parte da população, alimentando uma forma de violência que é disfarçada de preocupação. Ao longo do vídeo uma senhora repete diversas vezes que a Mulher Fruta Pão deveria “se tratar”, apesar desta aparentar ter boa saúde, dançando sem perder o fôlego.

A apresentadora, despreparada para a situação, faz cara de surpresa, quase cai no chão, e faz o infeliz comentário de que “algumas pessoas obesas têm a locomoção reduzida.”

A influência negativa desdes comentários é tão grave que somos cada vez mais inundados com notícias de pessoas com transtornos alimentares, novas técnicas cirúrgicas para perda de peso, dietas milagrosas etc. Todo um mercado é fortemente estabelecido em cima desta falsa necessidade das pessoas perderem peso, podendo, inclusive, tornar as pessoas menos saudáveis no processo.

A Jessica, uma das autoras do Blogueiras Feministas, escreve um post contanto a experiência dela com os preconceitos, a autoestima e como a possibilidade de fazer cirurgia ajudou no caso dela, sempre considerando os prós e contras.

“Eu tentava me aceitar. Mas não é fácil se manter psicologicamente bem o tempo inteiro quando não se é aceita. Quando eu era pequena era muito pior, tive problemas sérios, frequentei nutricionista, psicólogo e sei lá quantos outros médicos. Mas depois que cresci não deixei de usar biquine, ou sair, por ser gorda. Aprendi a me aceitar assim. Gorda, linda, e gostosa. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante, nada é perfeito. Em alguns momentos eu perdia aquela segurança da mulher gorda, linda e gostosa, e virava uma menina insegura e gorda, só gorda.”

Leia o link completo em: http://blogueirasfeministas.com/2012/10/relato-de-uma-balonada/

Enquanto isso, nos portais de notícia:
G1: Genética influencia mulher que quer ser magra a todo custo, diz estudo
UOL: O desmame e a anorexia infantil
Terra: Atleta britânica abandona triatlo para lutar contra anorexia
iG: Obras de arte modificadas para alerta sobre anorexia
R7: Anoréxica batalha pela saúde depois ter quase morrido