Arquivo da categoria: Cultura do estupro

Desenhando a falsa simetria

Se você esteve online nas últimas duas semanas você deve ter ouvido falar no Lulu. É um aplicativo para Android e iOS em que mulheres podem avaliar parceiros sexuais antigos e atribuir notas à sua performance, além de possuir algumas tags pré-definidas.

Muito se fala nas tags do Lulu, em especial a polêmica “vale menos que um pão na chapa”, mas muitas das tags (apesar de serem agregadas entre positivas e negativas) são de caráter contextual. Alguns exemplos de tags são: curte Romero Britto, usa Raider, acende um cigarro no outro, 4 e 20, três pernas, fica na dele, mais pop que o papa, cavalheiro e ursinho. Acredito que nenhuma dessas informações é inerentemente ruim ou boa, mas que pode ter seu caráter variável de acordo com a situação.

A criadora do aplicativo diz que a sua intenção é virar a mesa nas conversas de bar. Muito se foi discutido a respeito, desde questões de privacidade no Facebook até diferentes formas de abordagem ao serviço e como este estaria inserido dentro da lógica patriarcal.

A discussão tomou ainda mais fôlego, especialmente nos meios feministas, com o surgimento do aplicativo que pretendia ser o seu equivalente simétrico: Tubby. A grande questão se concentra em uma falsa simetria entre mulheres avaliando homens e homens avaliando mulheres.

Não entendeu? Eu explico. O Lulu, apesar de nunca declarar, se pretende ser universal. O posicionamento é tão ingênuo que chega a soar infantil. Para a desenvolvedora todas as pessoas no Facebook são ou homens ou mulheres e são heterossexuais (de fato, as pessoas poderiam ser bissexuais/pansexuais sem grande perda de usabilidade). O aplicativo ignora pessoas homossexuais, não-binárias, assexuais e até mesmo crianças e idosas. É um erro grande e grave, mas é um erro extremamente ingênuo. Em contrapartida o Tubby é um aplicativo de caráter universal, mesmo que seus desenvolvedores, cegos por terem seu privilégio masculino questionado, não percebam.

Vivemos em uma sociedade profundamente enraizada no binário de gênero (ou seja, que acredita que só existem homens e mulheres) e que acredita que existem papéis claramente separados entre esses dois gêneros (mesmo que, contraditoriamente, a linha divisora se apresente em lugares diferentes de acordo com o contexto). Então desde que nascemos nos é ensinado que papel devemos exercer de acordo com o gênero que nos é atribuído no nascimento. Isso quer dizer meninas de rosa, meninos de azul.

Mais profundo que isso, quer dizer que a mulher tem sua sexualidade podada desde os primeiros anos de vida, é ensinada a não ser estuprada, é ensinada a cozinhar e cuidar da casa, é ensinada a se maquiar e se embelezar para agradar ao olhar masculino. Desde muito novas as mulheres são sexualizadas e precisam se acostumar a viver com o fantasma do assédio as perseguindo. Desde muito novas aprendem que se foram estupradas ou se sofrerem algum tipo de violência a culpa é dela porque estava de roupa curta, porque bebeu, porque resolveu sair sozinha a noite…

A sexualidade da mulher é sempre tão severamente policiada e punida que existem diversos casos de crimes contra mulheres que resolvem deixar antigos parceiros, o feminicídio disfarçado de crime passional. Outra forma de atacar a sexualidade da mulher é o que chamamos de “revenge porn”, material pornográfico divulgado por um (ex-)parceiro como forma de atacar a credibilidade feminina. É sobre esse pressuposto que se apoia a declaração de que lésbicas não gostam de homens porque “nunca foram bem comidas”, podendo culminar em casos de “estupro corretivo”. É porque a sexualidade da mulher é domínio público (exceto dela mesma) que caso ela sofra qualquer agressão a culpa é somente dela, que estava ciente de estar expondo a sua sexualidade e não fez nada para evitar isso (até porque tudo que ela fizer apenas reforça a própria sexualidade, nunca atenua).

Vivemos numa sociedade em que a mulher vale menos se tem sua vida sexual exposta, em que diversos níveis de xingamento são baseados nessa conduta (inclusive, o pior xingamento para ofender um homem é direcionado à sua mãe). Não existe uma postura inócua ou neutra em expor a sexualidade de uma mulher, porque muito da imagem que ela passa depende disso. A sexualidade e a vida sexual vão ser invocadas em diversas situações, mesmo que isso não influencie o tema em questão. Na hora de procurar emprego, na hora de ser avaliada pelo chefe, na hora de andar na rua, na hora de conhecer novas pessoas, na hora de ficar quieto no seu canto.

O Lulu é uma brincadeira inocente e ingênua, ainda que inconsequente. É uma forma de mulheres se unirem e trocarem opiniões entre si de quem elas gostaram de ficar e indicar para as conhecidas as maiores qualidades e os maiores defeitos dos rapazes. Conceito que já foi explorado de outras formas em outros meios. Entretanto a sexualidade feminina precisa e será sempre julgada. O Lulu falha por não saber onde se posiciona dentro da sociedade.

Numa sociedade machista e misógina como a nossa uma mulher só merece respeito se for casta, se não gostar de sexo e de preferência se só fizer para agradar aos homens. A sexualidade da mulher é estranhamente controlada por parâmetros ambíguos: espera-se que a mulher seja uma dama na sala e uma puta na cama.

Os desenvolvedores do Tubby sabem disso e deixaram explícito no beta do aplicativo. O critério de inteligência diminuía a nota da mulher, assim como desempenho e iniciativa. O critério de disponibilidade aumentava a nota. Ou seja, quanto mais disponível uma mulher estivesse para servir sexualmente “o seu homem”, melhor a nota recebida. Os desenvolvedores do Tubby diziam que as mulheres que se descadastraram do seu site “arregaram”, como forma de ofender a mulher uma última vez enquanto ainda havia chance.

Recentemente o Tubby foi proibido pela justiça e os desenvolvedores do aplicativo lançaram um vídeo “explicando” que tudo não passava de uma brincadeira, que o aplicativo “falso” servia para denunciar o sexismo e misoginia gritantes na nossa sociedade e nos alertar para as questões de segurança. Porque essa é a mentalidade brasileira, qualquer coisa pode (e até em algum grau deve) ser feita se for em nome do humor, se for engraçado. Acredita-se que toda e qualquer coisa é aceitável se for em nome de agradar o status quo e a sociedade hegemônica. E é por isso que, criadores cientes disso ou não disso, o Tubby é um aplicativo de caráter universal.

P.S.: Em relação à questão de privacidade que foi amplamente discutida devido ao surgimento destes aplicativos: eu não me importo em ter meus dados coletados e utilizados por empresas para segmentação de mercado. O meu maior problema é que as empresas vão descobrir que gosto de azul e vão me vender coisas azuis, mas não vão descobrir que eu sou pró-transfeminismo e contratar pessoas trans*, não vão descobrir que eu sou contra o binário de gênero e produzir brinquedos sem marcadores de gênero e não vão se aprofundar em nenhuma destas questões sociais. Todo o sistema de opressões reforça e é reforçado pelo capitalismo e não existe nenhum interesse em combater este sistema.

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Pena de morte para estupro na Índia – De qual lado você está?

Ontem, dia 4/2/2013, foi aprovada pelo presidente da Índia uma nova lei para punição de crimes de estupro, mais severa, que prevê a pena de morte em determinadas situações. Nós do Eu Que Sou Intolerante nos posicionamos contra a aplicação da pena de morte em qualquer situação, porém consideramos a lei um avanço nos direitos das mulheres na Índia. Entendemos que o Estado indiano está legitimando a luta anti-estupro, equiparando ao homicídio “mais raro dos raros” [1].
Nas últimas semanas foram notificados casos de estupros coletivos na Índia [2], em lugares públicos, com omissão de socorro e que, eventualmente, terminaram com a morte das vítimas. Mortes tanto causadas pelas diversas agressões que estas pessoas sofreram, quanto também pela enorme pressão social ao serem culpabilizadas pelos crimes dos quais foram vítimas. Como forma de controlar essa epidemia de estupros na Índia, acreditamos, sim, que a pena de morte possa ser uma ferramenta de controle, considerando que esta já é uma punição corrente no país.
O foco da discussão não deve ser a pena de morte em si, mas sim a equiparação da punição dos crimes de estupro que resultem em morte com a punição prevista para os crimes de homicídio. Este é o fato relevante neste momento, e ele sinaliza um avanço na luta pelos direitos das mulheres indianas. Atentando-se ao contexto, a lei não pode ser considerada um retrocesso nos direitos humanos, pois em nada muda a situação no país: JÁ EXISTE PENA DE MORTE. A discussão sobre a legitimidade da pena capital foge ao escopo desse debate.
Consideramos que a preservação da vida de mulheres [3], em condições dignas e respeitosas, é mais emergencial que a ressocialização e manutenção da vida dxs criminosxs que cometem tais crimes em condições tão chocantes quanto as apresentadas nestes últimos casos. Não negamos a importância de políticas públicas de ressocialização e educação, entretanto julgamos estas secundárias à uma solução emergencial a esta barbárie.
Acreditamos que uma das maiores falhas da pena de morte seja a dificuldade de realização de julgamentos precisos, o que pode ocasionar na chance de que o Estado tire uma vida inocente. Entretanto em casos de estupro a identificação dx criminosx pode ser feita com grande confiabilidade, garantindo assim que apenas as pessoas que cometeram o crime possam pagar por este. Somos contra a aplicação da lei em casos em que haja dúvidas quanto ao reconhecimento das pessoas envolvidas.

Considerações:
A nova lei surge como resposta a crimes brutais ocorridos recentemente que chocaram a Índia e a comunidade internacional, suscitando debates sobre a impunidade dos crimes de estupro e necessidade de uma legislação mais rígida. A lei prevê aumento da pena, que atualmente estipula de 7 a 10 anos de encarceramento, para de 20 anos à prisão perpétua, com possibilidade de pena de morte nos casos em que a vítima venha a óbito ou entre em estado de coma ou vegetativo. Conforme a lei atual, ainda que o estupro resulte na morte da vítima, ainda aplica-se a pena de 7 a 10 anos. Para aplicação da pena capital, o estuprador precisa ser preso sob acusação de homicídio, e não de estupro.
A nova lei não considera como crime o estupro dentro do casamento e não aborda casos de violência sexual cometida por soldados em zonas de conflito.
Não são previstas na nova lei medidas de amparo às vítimas, tais como auxílio psicológico e criação de Delegacias da Mulher.
A lei não aborda em nenhum momento o caráter estrutural da violência contra as mulheres, não prevê políticas públicas preventivas, não discute a necessidade da reforma das instituições do Estado para preservar a dignidade da mulher, uma vez que as punições previstas pela lei ainda estão sujeitas ao crivo do judiciário, que, como reflexo da sociedade indiana, possivelmente continuará a não tratar estupros com a seriedade devida, o que pode tornar a nova lei praticamente inefetiva.

Dado o exposto podemos dizer que consideramos, com algum pesar, como vitória que estupros comecem a ser encarado com alguma seriedade, sendo passível pena de morte (a) nos casos de estupro (b) da Índia como (c) ampliação de uma punição já aplicada no país (d) em caráter emergencial, (e) nos casos em que x culpadx é claramente reconhecidx, (f) como contingente da epidemia que assola o país. Não concordamos com a pena de morte em casos em que estejam ausentes quaisquer uma dessas variáveis.
Muitas pessoas receberam a notícia positivamente. Algumas aplaudiram a aplicação da pena de morte, outras consideram até mesmo essa sentença insuficiente para estupradores. Essas manifestações inflamadas dizem mais respeito à sensação de que algo está sendo feito pelas mulheres indianas do que sobre a aceitação da pena de morte em si. Juntxs, todxs desejamos uma sociedade igualitária e menos violenta, com o fim dos crimes brutais noticiados recentemente. Juntxs comemoramos medidas que nos aproximam da igualdade ao promoverem um mínimo de dignidade para as mulheres, ainda que emergenciais, desesperadas e imediatistas: afinal, a Índia está em estado de emergência, as mulheres estão desesperadas e precisam de soluções imediatas.

Nós consideramos o crime de estupro extremamente sério e acreditamos que o fim da cultura de estupro é uma demanda feminista de extrema importância, entretanto não acreditamos que uma demanda de direitos humanos seja superior a outra. Desta forma convidamos Thaís Campolina, do Ativismo de Sofá, para fazer um contraponto a opinião aqui exposta e ajudar a fomentar discussões sobre o assunto.

“A situação dos estupros na Índia é alarmante, mas é necessário lembrar que permitir a pena de morte não impede que os crimes continuem a ocorrer. Com ou sem pena de morte, os estupros continuarão acontecendo. E além disso, devida a falta de preparo para o Estado proteger, acolher e lidar com as vítimas do crime de estupro,  a cultura machista e misógina e também o próprio funcionamento do sistema judiciário do país é provável que não chegue a haver condenações que não sejam a dos casos que sejam de conhecimento internacional.  E caso haja condenações, além dessas, é provável que muitas delas sejam motivadas por outros preconceitos.

A pena de morte em casos de estupro na Índia não protegerá essas mulheres, porque crimes contra mulheres costumam sair impunes por causa de vários fatores, como a culpabilização da vítima, a negligência do Estado, a falta de treinamento para o atendimento das vítimas e etc.

Minha oposição a essa lei não é motivada apenas por motivos ideológicos de não acreditar que o Estado possa ter legitimidade para matar seus cidadãos, mas principalmente porque é um devaneio acreditar que colocar a pena de morte como punição ao crime de estupro as mulheres deixarão de serem estupradas, porque mesmo existindo essa punição, a cultura do estupro e a impunidade sobrevivem.

É importante observar que a pena de morte para crimes comuns existe na Índia e que ampliar o alcance dessa punição para abranger também o crime de estupro é uma tentativa de dizer para o mundo que mulheres são gente.”

[1] Essa classificação é concedida após uma análise da brutalidade do crime, ou dos antecedentes criminais passados da pessoa que cometeu o crime.
[2] Algumas considerações em: Caso de estupro coletivo expõe falhas da Justiça da Índia
[3] Não acreditamos que mulheres sejam as únicas vítimas de estupro, entretanto estamos cientes de que estas estão muito mais suscetíveis que os homens.

Para entender melhor: Ativistas indianos pedem nova lei de estupro mais abrangente
Nova lei prevê pena de morte para estupradores na Índia
What India’s Working Women Say About Sexual Violence [em inglês]

Post escrito em conjuntos pelxs 2 autorxs do blog.

Batalhão dos caras legais

http://www.bulevoador.com.br/2013/01/evitando-o-estupro/

O texto parece bom, mas não li ainda por que pulei direto pros comentários. Explico: boa parte dos textos do tipo falam coisas que mulheres JÁ SABEM. Se o texto for ruim, do tipo que ensina o comprimento adequado de saia pra não ser estuprada, o patriarcado já nos ensinou muito bem, obrigada, e reforça isso o tempo todo através de nossos pais e nossas mães, nossxs professorxs, a mídia, a ficção, a moda, as conversas de boteco, as dicas dxs amigxs. Se o texto for bom, do tipo que ensina HOMENS a NÃO ESTUPRAREM, nós também sabemos, por que TODAS já passamos por essas situações, todas já tivemos nossas vozes silenciadas, nossa autonomia desautorizada e nossos corpos desrespeitados pelo direito (entitlement) masculino.

O que me interessa hoje em dia nesse tipo de texto é a resposta do público. O desculpismo masculino, a incrível capacidade de enxergar o comportamento padrão como exceção, não sabendo (não querendo) reconhecê-lo em si, a misoginia que escapa em cada comentário. A resposta a um texto sobre estupro escrito por uma MULHER, alguém que tem vasta experiência no assunto. Sim, só por ser mulher, infelizmente essa é a situação.

Por melhor que seja o texto, interessante mesmo é o sempre presente batalhão de caras legais que aparecem pra dizer que ‘não é bem assim, peraê’. Nessa hora, até a comunidade ateísta/humanista/racionalista/cientificista recorre ao ‘instinto natural do ser humano’ (que é homem, claro, já que humanidade é uma qualidade que, como mulheres, nos é negada), que responde inevitavelmente ao chamado daqueles nossos 2 cm a menos de vestido. É esse o desculpismo masculino, que delega pelo menos parte da culpa ao irresistível poder de sedução feminino (privilégio feminino! temos mais poder na sociedade por conta dele!). Que responsabiliza a tal má interpretação de nossas vontades à ausência de negações explícitas, em vez de responsabilizar os homens, que fazem o que querem mesmo na ausência de consentimento explícito. Que questiona o uso do termo ‘estupro’ quando ‘só’ ocorre sexo oral forçado, ou qualquer outro ato que não seja penetração vaginal. Que reclama da injustiça das falsas acusações de estupro (mais um privilégio feminino, as mulheres têm tantos!). Que vem lembrar que homens também são estuprados, e nós deveríamos lembrar deles. Que repete o cânone não beba/não mostre o corpo/não saia sozinha e faz a comparação com roubo e furto de carros ou outro bens (é só prudência! estamos falando em prevenção, afinal, não?), sem atentar que isso coloca as mulheres exatamente na mesma posição – a de bens de consumo – e nega a misoginia desse pensamento. Que reclama da generalização e vem lembrar que nem todos os homens são assim, na verdade, quase nenhum homem é assim. Que esquece que somos assediadas e estupradas mesmo de moletom e chinelo, descabeladas e com cara de sono às 8 da noite numa rodoviária à espera da carona:

Já aconteceu comigo. Passei pela desagradável experiência de ter um homem chacoalhando um maço de dinheiro na minha frente enquanto eu tentava entender o que ele dizia, o que era difícil por causa de sua embriaguez. Pensei que ele, que parecia ter lá seus 60 anos ou mais, estava perdido, desorientado e pedindo ajuda pra ir a algum lugar (por estar na rodoviária me senti razoavelmente segura pra permanecer ali e tentar ajudá-lo. Razoavelmente segura, por que quando escurece eu nunca me sinto segura de fato sem um homem ao lado). Quando finalmente consegui distinguir as palavras, ouvi algo como “pra onde você quiser, dinheiro nóis tem”. Saí de perto horrorizada, com alguma dificuldade (ele estava na minha frente e, apesar de não ter me segurado ou tocado em mim, se colocou de modo a impedir a minha passagem). Procurei com os olhos pela rodoviária por algum apoio, um policial, algum comerciante que ainda estivesse por ali, QUALQUER PESSOA (automaticamente os olhos procuram por um homem nessas horas, patriarcado nos ensinou muito bem que mulheres não são confiáveis e devemos ir aos homens por proteção). Percebi um homem sentado não muito longe, que tinha visto tudo acontecer e não tinha feito nada. Fez um sinal com a mão no assento ao lado ao dele, me chamando pra sentar ali perto. Ele tinha observado tudo e em nenhum momento se dirigiu ao homem que gritava comigo ou ao menos se levantou, estava só esperando a hora de se oferecer como meu salvador, esperando sabe-se lá o que em troca. Fugi dali com tanto medo dele quanto do outro homem, que ainda estava por perto por que ninguém o havia retirado. Era seu direito ocupar aquele espaço. Eu é que não deveria andar à noite desacompanhada.

O batalhão de caras legais que sempre aparece pra comentar textos sobre estupro é formado pelos mesmos caras legais que estavam presentes quando isso aconteceu comigo e seguiram seus caminhos como se nada estivesse acontecendo. Caras legais, tipo aqueles que acusam as vadias de colocá-los em sua friendzone. Mas não todas as mulheres, só as vadias. As vadias que os negam de seu direito inalienável ao sexo. E são vadias também as mulheres que fazem sexo. Caras legais que nunca estuprariam uma mulher, a menos que ela esteja sozinha, sozinha à noite, sozinha em público, sozinha em casa, com roupas curtas, bêbada, drogada, dançando, que seja bonita, muito feia, magra, gorda, branca, negra, que ouça punk, funk, pagode, sertanejo, que pegue carona, que ofereça carona, que ria, que não ria, que chore, que seja hétero, bissexual, lésbica, assexual, que seja pobre, rica, classe média, que diga não por que está fazendo doce, que diga sim por que foi coagida, que não diga nada, que não pare de falar, que seja de família, que seja de rua. Nesses casos não é estupro. Eles são caras legais.

Avenida Brasil e Carminha: é machista por que é punitivista

“Há algum tempo em uma sala da escola onde eu estudo, um grupo de garotos tem se unido para, de forma ou outra, revezando estratégias, reproduzirem atitudes machistas: as difamam, agridem fisicamente com disfarce de brincadeira, humilham, chamaram várias de vadia e vagabunda em público, apostaram duas delas – quem ficasse com uma ganharia um valor x, quem ficasse com a outra ganharia valor 2x -, o que pra mim é prostituí-las e isso vem se tornando mais constante.

Fui, inclusive, uma das vítimas disso. Diante da passividade da escola com a situação, preferi apenas mudar de sala. Hoje, porém, novamente, situação dessas ocorreu, e de forma bem grave. Uma das minhas amigas resolveu reagir, e a escola mais uma vez nao tomou atitude alguma.

O garoto em questão, da situação de hoje, é maior de idade. Ele a chamou de vadia, falou que a outra menina não valia nem 20 reais (ou seja, objetificando-a de forma extremamente cruel) e criou situação de humilhação e constrangimento. Várias das meninas são testemunhas, e alguns garotos também.

Queria saber de quem é da área do direito, desse tipo de militância denunciativa, o que pode ser feito…”

Este é o triste relato pedindo ajuda que eu recebi hoje. Quando não se pode mais confiar nas estruturas de poder que supostamente servem para te proteger, a quem recorrer? Como dar a cara a tapa e ir a uma delegacia fazer uma queixa se você está acostumada a ouvir que é “histeria”, que é “culpa da TPM”, que “isso nem é tão grave assim”. Depois de tantas agressões como se manter firme?

Enquanto isso, no começo desta semana assisti uma boa parte do país vibrar e comemorar que a Carminha (personagem interpretada pela Adriana Esteves em Avenida Brasil) finalmente levou a surra que merecia por ter traído o marido. A mesma mulher que ao confessar ter se prostituído recebe como resposta “pelo menos você era bonita”, e a população aplaude.

As mulheres são frequentemente ditas para “se darem ao respeito”, mas que exatamente isto quer dizer? Se aprendemos e ensinamos que o respeito é condicional para mulheres, que a partir de um certo ponto é aceitável que se use qualquer método para se chegar aonde queremos, onde vamos parar? Quais seriam os limites aceitáveis deste respeito?

A Luka, do blog BiDê Brasil, fez um post mostrando os mecanismos de manutenção destes preconceitos contra a mulher, mostrando como “apesar de ser apenas ficção” este é um reflexo da nossa sociedade e como ajuda a manter o status quo. Ela é incisiva ao dizer:

“Nós deixamos isso passar por que entramos no transe, é só uma novela, assim como é só uma piada. Ninguém fala sobre as porradas que Max sofreu, ou a tortura feita por Nina a Carminha, ou a tentativa de assassinato de Nina por Carminha e tantas outras soluções sumárias que a novela nos apresentou. É machista por que é punitivista, mostra uma forma de estruturar o poder que mantém patriarcado e as estruturas vigentes. Pelo menos para mim é esse o debate e não o debate de: eu sei fazer o distanciamento entre ficção e realidade.

Ou agora vão dizer que uma novela é menos pior que uma piada machista?”

Para ler o post completo: http://bdbrasil.org/2012/10/09/avenida-brasil-e-carminha-e-machista-por-que-e-punitivista/

E não se esqueçam: Mulher, não se cale!
Central de Atendimento a Mulher – Ligue 180 e faça sua denúncia

Nenhuma agressão ficará sem resposta

Os casos de violência contra a mulher são tão frequentes que existe uma delegacia exclusiva para este tipo de crime. São frequentes na mídia, sofridos e causados por pessoas que estão em constante destaque tanto nacional quanto internacionalmente. São frequentes em toda forma de expressão: literatura, filmes, novelas, seriados…

Este vídeo é, para mim, extremamente simbólico. A Raquel (Helena Ranaldi) foge do Marcos (Dan Stulbach) devido à cultura de agressões e a recusa dele em aceitar o divórcio e reestabelece sua vida em outra cidade. Eventualmente ele a encontra e descobre que ela está se relacionando com um rapaz mais jovem. Para proteger ao namorado e a si mesma ela finge estar ainda apaixonada pelo o ex-marido, levando à cena do vídeo. Houve grande repercussão depois da veiculação destas cenas na mídia em horário nobre.

Ainda em Mulheres Apaixonadas temos a Dóris (Regiane Silva), vilã que batia nos avós, que apanha do pai como punição, num ciclo sistemático de violência. Já em Laços de Família a Íris (Deborah Secco) era constantemente espancada pelo Pedro (José Mayer) devido à sua sexualidade. Apesar dos contextos diferentes em cada um destes casos a constante é a relação de poder entre um homem e uma mulher.

Os desfechos das situações mostradas na televisão são em geral bastante simples e pouco burocráticos, entretanto reviver uma agressão deste porte parece uma tarefa árdua e que exige muita coragem para vencer os obstáculos sistemáticos impostos.

Recentemente a Paula sofreu um caso de agressão do seu então namorado e criou um blog, o Nenhuma agressão ficará sem resposta. Nele ela conta a história da agressão e mostra fotos dos hematomas, assim como hospeda diversas cartas de repúdio ao ato e apoio à vítima. Segue um trecho de uma carta postada, assim como o link para o blog.

“E mais, não devemos encarar isso como um ato de “um monstro”, um “surto psicótico” e muito menos como uma “briga de casal”, isoladas no espaço-tempo, entre uma vida relativamente serena. Aqueles que agridem companheirxs ou os que estupram mulheres ou espancam travestis e homossexuais não são “monstros” que “surtaram”, são um fruto ‘normal’ e previsível de uma sociedade que produz e regula – normatizando, normalizando, patologizando, marginalizando e excluindo – performances de gênero que reproduzem padrões binários de masculinidade e feminilidade e de heterossexualidade, em outras palavras, são fruto da heterossexualidade como regime político. Podem ser o seu vizinho, o seu pai, a sua chefe, ou mesmo seu companheiro de coletivo.”

Carta aberta de repúdio, escrita pela vítima: http://bastademachismo.blogspot.com/2012/10/venho-atraves-desta-carta-de-repudio.html

Mulher, não se cale!
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O dia em que eu tive medo por ser mulher

A Ariane, do Mistura Urbana, escreve com sensibilidade um post contando o caso em que ela foi abordada e ameaçada sexualmente. Ela analisa os instrumentos governamentais que auxiliam a invisibilizar a causa feminista, ao mesmo tempo em que em que questiona a validação das agressões cotidianamente sofridas por mulheres.

“Não fui estuprada, não sofri lesão corporal, não voltei a encarar o agressor, mas isso não faz as coisas serem mais fáceis pra mim. Foi terrível. Tive medo por ser mulher. Nunca antes na minha vida tinha desejado tanto não ser.”

Leia o post completo em: http://misturaurbana.com/2011/12/o-dia-em-que-eu-tive-medo-por-ser-mulher/