[GUEST POST] Consciência negra: dos racismos institucionalizados de cada dia

Post escrito por Azânia Nogueira

[Alerta de conteúdo: racismo]

A primeira metade do Dia 20 de novembro de 2013 mal acabou – é 12h40 quando inicio a escrever este “ensaio” – e já perdi as contas de quantos posts, tweets, entradas de blogs e comentários racistas eu li. Não me entenda mal, não é como se hoje fosse uma exceção à regra, leio esse tipo de coisa diariamente. Hoje, porém, o racismo de cada dia se disfarça de maneira ainda mais apurada, na ausência de necessidade de um Dia da Consciência Negra, afinal “somos todos da mesma raça” e precisamos mesmo é de “um dia da consciência humana” e “o que nos diferencia é a etnia”. A etnia é um conceito biológico e cultural, tem a ver com língua, cultura, genética. Lembro de um trabalho que uma professora de história uma fez requisitou em sala: traçar minha árvore genealógica e discorrer sobre a minha etnia. Enquanto alguns colegas apareceram em sala com o brasão da família e diziam com orgulho que todos os membros que a compunham ainda preservavam o sangue sem nenhum tipo de miscigenação, eu não sabia dizer com tanta certeza sobre a minha. Porque a minha família não vinha de um lugar. Ela fora trazida. E no momento que aqui chegou, teve todos os elementos que pudessem lembra-la de que era um ser humano arrancados dela, inclusive a família, que foi desmembrada. Por isso, não reconheço o sobrenome que carrego como meu – ele era dos escravocratas que tinham posse sobre meus ascendentes. “Mas vocês usam escravidão como desculpa para tudo!”, eles dirão. É o que falam sempre, independente do assunto. Eles dizem que é algo que aconteceu há muito tempo atrás e que deveríamos deixar pra lá. Primeiro, vamos fingir que a escravidão acabou exatamente naquele 13 de maio de 1888. Então a escravidão durou mais ou menos 358 anos. O Brasil vai estar 358 anos “livre” da escravidão em 2246. Isso mesmo, em 233 anos. Então ao invés de pensar em quanto tempo a escravidão “acabou”, que tal pensar em quanto tempo ela durou e de que maneira se deu a construção da sociedade brasileira?

Ponto de vista ocidental da questão escravocata.

Voltando aos conceitos, raça é um conceito social e sobre ele qualquer negro entende. Não precisa estar na academia para saber que elementos diferenciam uma raça da outra, é preciso apenas procurar um emprego, querer entrar em uma universidade pública, ficar até um pouco mais tarde na rua. Então, não, não queremos causar uma “rixa racial” com este dia. Queremos justamente o contrário. Mostrar que essa distinção já existe e como acabar com ela.

“Mas já vivemos numa democracia racial”. Nem mesmo o mais otimista consegue acreditar quando justamente o dia que visibilizamos a luta racial é justamente o único dentre todos os 365 dias que compõem o ano, que não pode virar feriado ou trará prejuízos financeiros aos herdeiros dos escravocratas que fizeram sua fortuna graças àqueles que persistem em reprimir. Mas não nos calaremos, nem hoje, nem nunca.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s