[GUEST POST] Visibilidade trans* nos meios LGBT

Hoje, dia 29 de janeiro, é o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A data foi criada para empoderar pessoas trans* e incentivar que as pessoas cis se eduquem sobre o assunto. Para ajudar na construção deste cenário trouxemos um texto escrito pelx Muni, do Minoria é a mãe, que fala sobre a falsa noção de inclusão das pessoas trans* no movimento dito LGBT.

“Lembro que ano passado, no dia da visibilidade trans*, eu li alguns posts sobre o assunto. Àquela altura, apesar de já ter enveredado pelo ativismo feminista e LGBT há algum tempo, eu não fazia ideia da fatia enorme de informação que me faltava. Eu tinha visto filmes e documentários, tinha lido pessoas falando sobre transexualidade, mas ainda não sabia exatamente o que eu estava ouvindo; só sabia que havia algo de errado com o que eu pensava antes e que lentamente minha cabeça estava se abrindo.

À medida que fui aprendendo mais sobre o que era, de fato, identidade de gênero, transexualidade e transgeneridade (que vai muito mais além do que a mídia gosta de nos vender) fui percebendo algo que, apesar de muito óbvio, não enxergamos muito claramente na maior parte do tempo: nós achamos que estamos incluindo pessoas trans* quando falamos a sigla LGBT, mas não estamos.

Apesar de agora eu estar falando mais especificamente da minha experiência com essa situação, acredito que ela não seja muito diferente da de muitos outros grupos. O que eu percebi foi que a falta de visibilidade das pessoas trans* em grupos LGBT vêm principalmente de dois motivos: desinteresse e falta de informação. O T vem junto com a sigla automaticamente, mas dificilmente alguém se lembra por que ele está lá, já que ser trans* não costuma ser a realidade da maioria dos membros. Isso não é uma exclusividade de grupos LGBT; todos nós em algum momento desconsideramos alguma coisa, ou nem sequer chegamos a pensar nela, só porque não nos atinge diretamente.

Já com a falta de informação o buraco é mais embaixo. O próprio fato de você não se interessar pelo assunto faz com que você também não se interesse em procurar saber mais sobre ele. É assim que, com tantas coisas na vida, apenas absorvemos a informação que nos rodeia e não procuramos entender de onde ela vem e se está realmente próxima da realidade. Absorvendo apenas o que os filmes mais mainstream mostram sobre transexualidade, por exemplo, pensamos que só existem mulheres trans* e que todas seguem a mesma narrativa. Pior ainda: absorvendo apenas as participações de personagens transexuais na maioria dos filmes ou programas, pensamos que é aceitável fazer piada e exotificar essas pessoas e seus corpos. Então é geralmente nesse contexto que encontramos boa parte das pessoas com quem nos relacionamos no dia a dia, façam elas parte de um grupo específico ou não.

Já sabemos o que é homofobia e lutamos contra ela – embora muitas vezes ignoramos as particularidades da lesbofobia e da bifobia. Mas ainda nos confundimos quando se fala em transfobia e cissexismo. Uma busca simples no Google pode te retornar um exemplo disso: na maioria das matérias e notícias sobre assassinatos de transexuais e travestis, além dos pronomes errados e da falta de respeito pelo nome social da vítima, o que mais se vê é a associação do fato com a homofobia. Ninguém fala em transfobia. Ninguém fala sobre o fato de uma mulher trans ser morta porque seu assassino descobriu que “ela não era mulher de verdade”, mas falam como se sempre se tratasse de um crime contra homens homossexuais vestidos de mulher.

Se você faz parte de um grupo LGBT que ainda não incluiu as necessidades específicas das pessoas trans* nas suas pautas, dê a sugestão. A letra T não está lá de enfeite. Se em todo grupo houvesse reuniões específicas para falar sobre transexualidade/transgeneridade, trocar ideias e esclarecer dúvidas, a desinformação espalhada por anos e anos de senso comum desapareceria mais rápido. Pode não resolver o problema, mas certamente ajuda muito simplesmente começar a pensar sobre o assunto e perceber que, afinal, mesmo que isso não lhe atinja diretamente, atinge muita gente e você também tem a capacidade de informar outras pessoas e mudar a sua realidade no que estiver ao seu alcance. Todos nós temos.”

“Você está no banheiro certo?” – Pessoas trans* e algumas perguntas que são feitas a elas.

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3 Respostas para “[GUEST POST] Visibilidade trans* nos meios LGBT

  1. Adorei!
    Temos que nos sensibilizar sempre, e nos fortalecer compartilhando experiências!

    Um beijo!

  2. Quando eu era pequenininha (minha mãe se dizia feminista e me ensinou muita coisa sobre aceitar alteridade quando me criou sob uma ótica de aceitação do outro), a sigla era “GLS” (Gays, Lésbicas e Simpatizantes). Isso era comum até o fim dos anos 90.
    Aí, a sigla foi sendo alterada para GLBT lentamente dentro do vocabulário tanto dos ativistas quanto de quem se referia aos ativistas. Então, houve muita discussão sobre a visibilidade das lésbicas dentro do ativismo político. A sigla passou a ser LGBT, para não deixar que a luta contra a lesbofobia fosse menor do que o preconceito contra homossexuais masculinos. Isso veio, aqui em Brasília, acompanhado de mais destaque também para o “carro das lésbicas” na parada do orgulho homossexual (e não mais orgulho gay).

    Porém, continua aquele T ali no LGBT. Um T que vem por último na sigla. Um T que precisa ser o suficiente para abarcar xs transexuais, xs transgêneros e xs travestis. Pouca gente sabe diferenciar um T do outro. Pouca gente sabe se tem mais termos que descrevem alteridades sexuais além desses 3 termos citados, isso quando sabem que existem esses 3.

    Óbvio que não seria uma luta digna por si só pedir para que se altere a sigla para TTTLGB, por exemplo. Não é essa a questão. Não é a mera alteração de uma sigla que vai fazer com que xs T deixem de ser invisibilizados pelxs militantes e por quem não é militante. A luta é para que, inicialmente, apenas saibam que esse T existe e o que ele significa. Passos pequenos.

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