Batalhão dos caras legais

http://www.bulevoador.com.br/2013/01/evitando-o-estupro/

O texto parece bom, mas não li ainda por que pulei direto pros comentários. Explico: boa parte dos textos do tipo falam coisas que mulheres JÁ SABEM. Se o texto for ruim, do tipo que ensina o comprimento adequado de saia pra não ser estuprada, o patriarcado já nos ensinou muito bem, obrigada, e reforça isso o tempo todo através de nossos pais e nossas mães, nossxs professorxs, a mídia, a ficção, a moda, as conversas de boteco, as dicas dxs amigxs. Se o texto for bom, do tipo que ensina HOMENS a NÃO ESTUPRAREM, nós também sabemos, por que TODAS já passamos por essas situações, todas já tivemos nossas vozes silenciadas, nossa autonomia desautorizada e nossos corpos desrespeitados pelo direito (entitlement) masculino.

O que me interessa hoje em dia nesse tipo de texto é a resposta do público. O desculpismo masculino, a incrível capacidade de enxergar o comportamento padrão como exceção, não sabendo (não querendo) reconhecê-lo em si, a misoginia que escapa em cada comentário. A resposta a um texto sobre estupro escrito por uma MULHER, alguém que tem vasta experiência no assunto. Sim, só por ser mulher, infelizmente essa é a situação.

Por melhor que seja o texto, interessante mesmo é o sempre presente batalhão de caras legais que aparecem pra dizer que ‘não é bem assim, peraê’. Nessa hora, até a comunidade ateísta/humanista/racionalista/cientificista recorre ao ‘instinto natural do ser humano’ (que é homem, claro, já que humanidade é uma qualidade que, como mulheres, nos é negada), que responde inevitavelmente ao chamado daqueles nossos 2 cm a menos de vestido. É esse o desculpismo masculino, que delega pelo menos parte da culpa ao irresistível poder de sedução feminino (privilégio feminino! temos mais poder na sociedade por conta dele!). Que responsabiliza a tal má interpretação de nossas vontades à ausência de negações explícitas, em vez de responsabilizar os homens, que fazem o que querem mesmo na ausência de consentimento explícito. Que questiona o uso do termo ‘estupro’ quando ‘só’ ocorre sexo oral forçado, ou qualquer outro ato que não seja penetração vaginal. Que reclama da injustiça das falsas acusações de estupro (mais um privilégio feminino, as mulheres têm tantos!). Que vem lembrar que homens também são estuprados, e nós deveríamos lembrar deles. Que repete o cânone não beba/não mostre o corpo/não saia sozinha e faz a comparação com roubo e furto de carros ou outro bens (é só prudência! estamos falando em prevenção, afinal, não?), sem atentar que isso coloca as mulheres exatamente na mesma posição – a de bens de consumo – e nega a misoginia desse pensamento. Que reclama da generalização e vem lembrar que nem todos os homens são assim, na verdade, quase nenhum homem é assim. Que esquece que somos assediadas e estupradas mesmo de moletom e chinelo, descabeladas e com cara de sono às 8 da noite numa rodoviária à espera da carona:

Já aconteceu comigo. Passei pela desagradável experiência de ter um homem chacoalhando um maço de dinheiro na minha frente enquanto eu tentava entender o que ele dizia, o que era difícil por causa de sua embriaguez. Pensei que ele, que parecia ter lá seus 60 anos ou mais, estava perdido, desorientado e pedindo ajuda pra ir a algum lugar (por estar na rodoviária me senti razoavelmente segura pra permanecer ali e tentar ajudá-lo. Razoavelmente segura, por que quando escurece eu nunca me sinto segura de fato sem um homem ao lado). Quando finalmente consegui distinguir as palavras, ouvi algo como “pra onde você quiser, dinheiro nóis tem”. Saí de perto horrorizada, com alguma dificuldade (ele estava na minha frente e, apesar de não ter me segurado ou tocado em mim, se colocou de modo a impedir a minha passagem). Procurei com os olhos pela rodoviária por algum apoio, um policial, algum comerciante que ainda estivesse por ali, QUALQUER PESSOA (automaticamente os olhos procuram por um homem nessas horas, patriarcado nos ensinou muito bem que mulheres não são confiáveis e devemos ir aos homens por proteção). Percebi um homem sentado não muito longe, que tinha visto tudo acontecer e não tinha feito nada. Fez um sinal com a mão no assento ao lado ao dele, me chamando pra sentar ali perto. Ele tinha observado tudo e em nenhum momento se dirigiu ao homem que gritava comigo ou ao menos se levantou, estava só esperando a hora de se oferecer como meu salvador, esperando sabe-se lá o que em troca. Fugi dali com tanto medo dele quanto do outro homem, que ainda estava por perto por que ninguém o havia retirado. Era seu direito ocupar aquele espaço. Eu é que não deveria andar à noite desacompanhada.

O batalhão de caras legais que sempre aparece pra comentar textos sobre estupro é formado pelos mesmos caras legais que estavam presentes quando isso aconteceu comigo e seguiram seus caminhos como se nada estivesse acontecendo. Caras legais, tipo aqueles que acusam as vadias de colocá-los em sua friendzone. Mas não todas as mulheres, só as vadias. As vadias que os negam de seu direito inalienável ao sexo. E são vadias também as mulheres que fazem sexo. Caras legais que nunca estuprariam uma mulher, a menos que ela esteja sozinha, sozinha à noite, sozinha em público, sozinha em casa, com roupas curtas, bêbada, drogada, dançando, que seja bonita, muito feia, magra, gorda, branca, negra, que ouça punk, funk, pagode, sertanejo, que pegue carona, que ofereça carona, que ria, que não ria, que chore, que seja hétero, bissexual, lésbica, assexual, que seja pobre, rica, classe média, que diga não por que está fazendo doce, que diga sim por que foi coagida, que não diga nada, que não pare de falar, que seja de família, que seja de rua. Nesses casos não é estupro. Eles são caras legais.

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15 Respostas para “Batalhão dos caras legais

  1. E esses caras legais também estão justificando porque “pensar maldade” com criança que parece mulher não é pedofilia e muito menos violência. É apenas “coisa de homem”.

  2. Muito obrigado pela anáise, Ariane. Falou exatamente tudo o que eu pensei em relação aos comentários no meu texto. E calculo que vc esteja se baseando ao menos em parte em um misógino de nome Gabriel Rodrigues que apareceu por lá. O comentário mais comprido dele, defendendo estupro, foi apagado, e outros dois comentários nos quais ele dava piti continuam lá simplesmente como evidência dos motivos pelos quais ele foi banido permanentemente.

  3. Xx xxx xxxxx x xxxx xxxxxxx x xxxxxxxxxxx xxxxxx x xxxxxxxxxxx xxxx xxxxxxxxxxxxxxxxx xxx xxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xx xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx x x xxxxxxxxxxxx xxxxx xxxxxxxxxx

    (gostei de você substituir os artigos de genero por x pra ser politicamanente correta e fui a fundo e substitui todas as letras do meu comentario agora sou uber politicamente correto)

    • “Na língua portuguesa as palavras podem possuir desinências nominais que indicam as flexões de gênero (masculino e feminino) e de número (singular e plural). Na gramática o gênero masculino se sobressai ao feminino tanto porque o padrão é que adjetivos, e até alguns substantivos, sejam terminados em -o(s) (gênero neutro e masculino), quanto em casos como o uso de “homem” no sentido de “humanidade”. Além disto, as desinências só permitem dois gêneros, masculino e feminino, e algumas pessoas não se identificam dentro deste binário (ou seja, nem como homens e nem como mulheres). Considerando todos estes fatores fica evidente a necessidade de criação de uma linguagem mais inclusiva; como paliativo é utilizado informalmente -x(s) ou -@(s) como desinências nominais neutras.” http://opensadorselvagem.org/ciencia-e-humanidades/demografia/genero-neutro-e-linguagem-inclusiva

    • Você acha que é engraçado, mas é só imbecil.

  4. O pior do estupro é que as mulheres param de gostar de homem.

    • Na verdade o pior do estupro é que pessoas são estupradas. Mas ainda assim a sua assertiva não faz sentido porque (a) não apenas mulheres são estupradas, (b) nem todo estupro é praticado por um homem e (c) não compactuamos com a heterossexualidade compulsória.

      • Eu nao quis entrar em detalhes

      • As pessoas estupradas não são detalhes. Definitivamente não são menos importantes que “as mulheres param de gostar de homem.”.

      • Concordo que pessoas estupradas nao sao detalhes. elas podem ate virar estatisticas e estatisticas manipuladas por ativistas radicais. os homens ‘tambem sao estuprados’ muitas vezes vira detalhe. Cada detalhe desses pode ser jogado na cara de um desafeto a cada instante. eu acho infantilidade e hipocrisia. nao quis entrar em detalhe e acredito na claresa do meu comentario. o que ficou claro tambem é a vontade que o povo tem de ter a ultima palavra numa discussao, de dar tapas de luvas etc.

    • Você faz um post sobre comentários babacas que aparecem em posts sobre estupro, vem alguém fazer um comentário babaca.

  5. É. realmente todas essas desculpas escondem a misoginia tanto quanto uma peneira esconde o sol. Mas esses caras não tem nada de legais, se a gente for chamar eles assim a partir de agora, como vamos chamar os que realmente são legais?

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