[GUEST POST] Isto não é uma opinião

Amanhã, dia 21 de março, é o Dia Internacional contra a Discriminação Racial. Tendo em vista os recentes acontecimentos, trazemos o texto do Felipe Moreira:

Gostaria de trazer uma reflexão acerca de episódios, a princípio desconexos, mas que, se bem sucedida esta tentativa, poderão ser unidos sob um raciocínio comum: o do bem estar pessoal e social. Falo dos episódios recentes sobre o trote racista praticado na UFMG (informações aqui) , a discussão em torno da propaganda de certo sabão em pó, feita no dia internacional da mulher e do shampoo de uma marca avícola qualquer, divulgada recentemente. Tudo isto regado à boa e velha crítica descabida de que “as pessoas não estão relaxadas o suficiente” ou “à toas demais” e por isso perseguem uma espécie de política do correto (juntamente com o “ativismo de sofá”) infértil, mais estética do que prática. Uma grande briga neste sentido tem sido a questão do stand up e suas “piadas” de cunho preconceituoso e como a sociedade civil tem respondido à isso (um caso específico pode ser discutido neste link). Por trás de todos estes casos, jaz a polêmica do humor, da comédia, da ironia e, de fato, quais seriam seus limites e possibilidades. Não estou aqui para reabilitar o humor de ninguém nem apontar quais variáveis você pode utilizar para “ser engraçado” para alguém, mas justamente pra tentar mostrar que existe um alvo nas piadas, ninguém conta algo engraçado, “causos” ou histórias, sem ter personagens e um público alvo… senão ficaríamos sozinhos em casa contando piada para o espelho, não é mesmo? Há uma atitude de defesa frente à piadas que não dão certo, como no caso do trote racista. É a ideia de que “foi só uma brincadeira” agindo como escudo pra nos redimir da auto-reflexão, afinal, ser introspectivo e se reavaliar constantemente dá muita dor de cabeça. É o mesmo caso quando achamos que uma pessoa se ofender por uma propaganda ‘x’ é exagero demais, não havia nada de errado nela, é hipérbole, isso não é machismo/sexismo. Mas, para aquela pessoa, foi. Do mesmo jeito que alguém se ofendeu (junto com toda uma etnia) com um trote universitário. Tal como um gênero se sentiu ofendido por declarações e piadas de certo humorista. Ou seja, precisamos sair dessa atitude nossa de defesa e começar a pensar em quem atingimos quando proferimos certos discursos, pois piadas e brincadeiras também são discursos. Somos responsáveis pelo que colocamos no mundo e palavras tem poder, precisamos reconhecer isso. Não é possível apagar o que foi dito, principalmente da cabeça de quem lesamos. E mais importante, não podemos deslegitimar a luta de nenhuma pessoa, grupo ou segmento com argumentos rasos como “estão procurando pelo em ovo” ou que é “falta de louça pra lavar”, pois essas afirmações tem origens nefastas e fascistas. Desautorizam e retiram a autonomia das pessoas para decidir o que é importante para elas e pelo que é importante lutar já que define uma série de coisas que valem a pena de se correr atrás e outras que não. Argumentos assim definem agendas autoritárias. Não existe diálogo em cenários ditatoriais e, felizmente, vivemos numa sociedade plural onde existem pessoas lutando desde a abolição das práticas manicomiais à um apelo por maior ética na mídia: lidemos com isso. Resumindo, precisamos pensar um pouco mais antes de emitir opiniões, ninguém é obrigado a ser esclarecido o tempo inteiro e ter habilidade para falar de qualquer assunto. Podemos nos informar, repensar, pensar duas vezes antes de jogar no mundo nossas palavras. E principalmente quando não só estamos por fora de algum assunto mas também não fazemos parte do universo das pessoas protagonistas ou alvos deste assunto. Precisamos ter em mente que nenhum montante de informação vai nos colocar no salto-alto de outra pessoa, que precisamos ter humildade pra reconhecer nosso contexto específico de vida e possibilidades, nossos privilégios. Não, o mundo não está ficando sem graça e não, o humor não vai morrer. As coisas mudam, melhoram, evoluem… não estamos policiando ninguém, só exigindo qualidade sem coerção.

Alguns links interessantes para refletir:

Documentário “O riso dos outros”: http://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg

Sobre a questão dos privilégios: http://www.catolicas.org.br/noticias/conteudo.asp?cod=3775

Saindo de si: http://tamarafreire.wordpress.com/2012/08/15/essa-conversa-nao-e-sobre-voces/

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