V de Vingança

A conspiração da pólvora foi uma tentativa malsucedida de explodir o parlamento inglês utilizando trinta e seis barris de pólvora, os quais seriam detonados pelo especialista em explosivos Guy Fawkes. A ação, planejada em maio de 1604 por John Grandt e Robert Catesby, pretendia reinstaurar o governo católico no país ao destituir o poder vigente que não concedia direitos iguais a católicos e protestantes. A data escolhida era exatamente o dia em que o rei Jaime I estaria presente para pronunciar a fala da abertura das atividades da House of Parliament, o 5 de novembro, esperando, num só golpe, por tudo pelos ares: o monarca e os parlamentares. No trono vacante imaginavam colocar a princesa Isabel, a filha católica do rei.

Foi a partir de 1607, um ano depois da execução e esquartejamento de Guy Fawkes e sete dos seus companheiros, ocorrida em 30 de janeiro de 1606, que a população de Londres começou a celebrar o fracasso do atentado a cada dia 5 de novembro por meio da Bonfire Night [ou Noite das Fogueiras], noite em que acendem fogueiras e lançam fogos de artifício para externar seu contentamento. Guy Fawkes tornou-se a representação simbólica do traidor, do Judas capaz de entregar a Grã-Bretanha às potências do catolicismo inimigo: a Espanha e o Papado.

Em “V de Vingança” (V for Vendetta, no original) Alan Moore e David Lloyd criam uma distopia onde o mundo está em recessão devido a uma guerra nuclear e um governo totalitário surge tomando conta da vida das pessoas. Nas obras do Alan Moore as histórias sempre se misturam e confundem, elementos de histórias diferentes se complementam e formam uma terceira história, totalmente diversa das que estavam sendo contadas. E na vida, que também imita a arte, podemos ver efeitos semelhantes onde várias histórias se encontram em curso, em ritmos diferentes e se cruzam e modificam, numa intrincada rede de fatos.

Codinome “V”, inspirado por Guy Fawkes e a conspiração da pólvora, resolve dar direitos iguais a todos os cidadãos, nem que pra isso ele precise usar a violência. Na tentativa de colocar o seu plano em ação ele conhece Evey Hammond, uma mulher que perdeu tudo que tinha nas mãos do governo. Para não deixá-la desprotegida V acaba a levando para sua casa, a Galeria das Sombras. Apesar de concordar com a causa Evey discorda dos métodos do mascarado e não quer estar associada a nenhuma morte. Esta divergência pode ser vista em um diálogo do filme:

Evey: Você tem algo a ver com isso?
V: Sim, fui eu que o matei.
Evey: Você… Ai meu deus.
V: Está com raiva?
Evey: Eu, com raiva? Você acabou de dizer que matou Lewis Prothero!
V: Quando eu matei o oficial que te atacou, você não reclamou.
Evey: O que?
V: Violência pode ser usada para o bem.
Evey: Do que está falando?
V: Justiça.
Evey: Ah, claro.
V: Não há julgamento neste país para homens como Prothero.
Evey: E você vai matar mais gente?
V: Sim.

V acredita no poder da violência como símbolo de enfrentamento de uma estrutura de sociedade da qual ele não concorda. Uma filosofia análoga a esta é a de que a não violência é patriarcal, que aceitar as agressões cotidianas de forma pacífica reforça as estruturas do sistema opressor.

Na sociedade distópica de “V de Vingança” as pessoas negras, judias e homossexuais são perseguidas, torturadas e encaminhadas a campos de readaptação onde são usadas para experimentos médicos. Uma encarcerada, Valerie, ciente de que não sobreviveria aos experimentos, escreve uma carta para manter intacto um pedaço que é só dela: a integridade. A cena em que Evey lê a carta, uma autobiografia, pode ser vista a seguir:

O roteiro do filme é adaptado dos quadrinhos para o cinema pelo casal de irmãos que dirigiu a trilogia Matrix, Andy e Lana Wachowski. Em 2012, Lana foi vencedora do Human Rights Campaign Visibility Award [Prêmio de Visibilidade da Campanha pelos Direitos Humanos] e nos conta em um discurso tão emocionante quanto a carta de Valerie um pouco da sua vida. A cerimônia pode ser vista, em inglês, a seguir:

Portanto, “lembrai, lembrai, o cinco de novembro: a pólvora, a traição e o ardil”, um dia simbólico para que nunca desistamos de lutar por aquilo que achamos que é certo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s